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quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Genética e ideologia: os biólogos dialéticos contra a sociobiologia


por Bekah Ward
Resenha do livro Não em nossos genes: ideologia, biologia e natureza humana, por Richard Lewontin, Steven Rose e Leon Kamin. Lewontin também é conhecido por sua obra O biólogo dialético, em parceria com Richard Levins.
No início desse ano, Charles Murray, um dos autores do infame Bell Curve [A curva normal] foi confrontado com um vívido protesto durante um discurso que deu na Universidade de Middlebury. Ele estava lá divulgando seu novo livro, Desmoronando: o estado da América branca, 1960–2010. Neste, ele argumenta que tem havido uma desintegração ética e intelectual da classe trabalhadora branca desde os anos 60. Ele alega que isso só piorará porque pessoas pouco inteligentes e antiéticas tendem a terem filhos entre si, passando adiante seus traços. O racismo abjeto de Murray dos anos 90, está agora complementado por seu obsceno elitismo. Middlebury estava certa em protestar; essas ideias devem ser confrontadas. Embora haja muito debate no interior da esquerda sobre como melhor opor-se à intolerância, é um alívio que a Haymarket Books está republicando uma arma ideológica indispensável nessa luta: Não em nossos genes: ideologia, biologia e natureza humana, por Richard Lewontin, Steven Rose, and Leon J Kamin.

No primeiro capítulo, os autores expõem como seu momento político, meados dos anos 80, foi um momento chave para os cientistas desempenharem um papel no debate societário. As revoltas turbulentas contra a opressão que caracterizaram os anos 70 estavam dando lugar ao retalhamento neoliberal da rede de seguridade social. O determinismo biológico, ou a ideia de que características inatas, ou biologicamente conectadas dos homens determinam seus comportamentos, seriam ideologicamente bem úteis para essa nova economia. Os deterministas biológicos argumentam que tanto a diferença quanto a desigualdade derivam dos genes (geralmente) e justificam essa desigualdade ao concluir ela sendo “natural”. No entanto, outra geração de biólogos tomaram uma posição firme contra essa corrente. Entre eles, Mismeasure of Man [Desmesura do homem] de Stephen Jay Gould e o Not in Our Genes de Lewontin, Rose e Kamin foram antídotos incrivelmente importantes.

Os autores citam um artigo de 1969 de Arthur Jensen, que argumentava que diferenças de QI observados entre pessoas negras e brancas eram primordialmente genéticas em sua origem. Jensen chegou à conclusão lógica de seu trabalho: que o ensino superior era desperdiçado com os negros, os quais deveriam ser providos de mais educação em habilidades comerciais, condizendo com seus dons naturais. O que ficou conhecido como “jensenismo” foi a pseudoteoria adotada por nada menos que o Presidente Richard Nixon. Quando cientistas, encobertos num manto de autoridade objetiva, dizem aos políticos o que já queriam ouvir, política nasce. Este e outros exemplos são usados pelos autores para demonstrar a utilidade política de argumentos deterministas biológicos.

Eles são cuidadosos ao apontar que, no entanto, os problemas com o determinismo biológico não são unicamente encontrados nos efeitos. Voltando ao nascimento da ciência moderna, nos primórdios do capitalismo em desenvolvimento, eles notam a contradição inerente em nossa economia política corrente. O feudalismo, com sua autoridade assentada na igreja, foi destituído pelos apelos da burguesia aos trabalhadores de que a igualdade poderia e deveria existir. Claro que a burguesia queria mesmo era a liberdade para fazer lucros, não a liberdade da humanidade em geral. Logo, uma vez no poder, a desigualdade permaneceu e esta precisava de uma ideologia que explicasse sua continuação. Que entrem os novos padres: cientistas, e um referencial filosófico útil — o reducionismo.

O reducionismo, aplicado ao comportamento humano, foi importante para uma sociedade capitalista emergente como um meio eficaz de controle social sobre os trabalhadores. Nesse caso, um fenômeno social e histórico — um local de trabalho eficiente — é reduzido a um atributo biológico inato de trabalhadores individuais, como uma máquina pode ser reduzida a suas partes menores. Como ciência expandida, essa premissa poderia ser feita mais precisamente; esse gene específico produz esse traço específico que produz essa característica específica da sociedade. Notem as setas causais aqui; o componente mais reduzido determina o fenômeno. Outro componente do método reducionista é ver fenômenos societários como um agregado de comportamentos individuais. O determinismo biológico diz que por causa desses genes, humanos exibem agressão e isso causa guerra. Logo, guerra é parte da natureza humana!

No início do livro, os autores enfrentam uma das maiores premissas dos argumentos racistas sobre inteligência: quanto da inteligência humana é hereditário? O jeito típico que as pessoas estudam essa questão é testando o QI (quociente de inteligência) de pessoas da mesma família contra pessoas fora desta. Existe enorme controvérsia sobre a métrica em si. No entanto, eles escolheram abordar um conjunto diferente de erros metodológicos na maior parte desses estudos.

Numa tentativa de separar “nature and nurture” estudos de gêmeos separados no nascimento comparados com aqueles criados juntos são frequentemente conduzidos. Daí, o QI de uma criança em particular pode ser comparado com o pai biológico e o adotivo para produzir um número — uma correlação quantificada interpretada como “herdabilidade”. No entanto, esses pais adotivos não são amostrações aleatórias. Pais adotivos são cuidadosamente peneirados e tendem a ser mais abastados e mais educados. Como um grupo, todos eles tendem a ter um QI muito similar (uma das correlações com QI mais fortes é o status socioeconômico). Por conta da maneira que essas estatísticas são rodadas, se você não tiver uma variação decente numa amostra, você nunca encontrará uma correlação com a variação na outra (QI da criança). Condenados desde o princípio, todos esses estudos mostram que QI é hereditário — apesar deles discordarem por um fator de quatro sobre quanta influência o DNA possui.

Tendo despachado os estudos dizendo que a inteligência é primordialmente herdada, os autores perseguem outro problema com o uso de dados sobre QI usados para justificar o racismo: a própria definição de raça. Eles apontam que não há base biológica para uma linha divisória entre uma “raça” e outra, embora eles sejam cuidadosos em lembrar o leitor que mesmo que “raça” seja uma ficção, o racismo é um fato social. O argumento advém do exame de versões altamente variáveis de um gene, ou alelos. Numa tentativa de encontrar uma base genética para a raça, a frequência de diferentes alelos dentre as “raças” foi determinada. Porém, mesmo os genes que tinham as maiores diferenças de frequência entre populações diferentes ainda tiveram sobreposição. E muitos genes possuem mais variabilidade dentro de uma “raça” que entre grupos. Assim, não pode haver diferença de QI entre raças — a questão toda está errada.

O próximo argumento que os autores enfrentam gira em torno dos traços “inatos” exibidos por sexos diferentes (eles fazem uma distinção entre sexo e gênero). Ao observar as diferenças entre os sexos no nascimento, eles mostram o quão escassas são as evidências para as grandes afirmações feitas sobre humanos em sua vida posterior. No entanto, ao invés de negar as diferenças, eles questionam as afirmações causais: genes fazem as garotas piores em matemática etc. Uma das explicações populares na época para a dominação masculina (que ainda perdura) era que o hormônio testosterona causava agressão e a força que estava associada a isso. Eles lembram o leitor que todos os sexos possuem um conjunto de genes — estrogênio, testosterona e progesterona — que são encontrados em diferentes níveis em momentos diferentes na vida de todo indivíduo. Eles, também, confrontam o uso da analogia a animais não-humanos para justificar o patriarcado contemporâneo. Pelo exame de outras espécies, cientistas são capazes de projetar padrões humanos em lugares em que isso não é preciso. Estudos mais recentes, conduzidos durante o ponto alto do movimento de liberação das mulheres nos anos 70, descobriram interpretações completamente diferentes de alguns padrões de acasalamento. As circunstâncias prevalecentes nas quais a pesquisa é conduzida apontam e modelam nossos horizontes intelectuais.

Em seguida, os autores examinam a patologização do comportamento “indisciplinado”. Há uma longa história disso; da Rússia Soviética à rebelião de Watts, cientistas tem tentado localizar e, então, “consertar” a base biológica da dissidência. Eles notam o dramático aumento no diagnóstico do que é hoje conhecido como TDAH. Essa forma de determinismo biológico carrega a premissa de que se você não pode consertar os genes causando o comportamento (porque isso é considerado eugenia e isso não é mais considerado aceitável), então você conserta a bioquímica causada por esses “genes ruins”. Eles apontam que essas iniciativas são profundamente lucrativas para a indústria farmacêutica e encontram sérias falhas em muitos dos estudos que são usados para dizer que essas drogas são ao menos eficazes. Eles continuam com isso atacando algumas das alegações de herdabilidade entre outros transtornos mentais, especialmente a esquizofrenia.

Nessa seção, eles contrastam uma visão determinista biológica com aquela dos deterministas culturais. Deterministas culturais, como o psicólogo B. F. Skinner, postulam que o comportamento é unicamente ou primordialmente determinado por condicionamento social. Skinner, como se sabe, advogou o condicionamento operante, ou mudança de comportamento baseada no reforço positivo ou negativo. Ele descreveu todo comportamento como sendo causado por uma série de diferentes reforços para um ou outro comportamento. Tanto em prisões quanto em escolas, uma mistura de determinismos culturais e biológicos estão na base de sistemas de controle social. E embora essas duas formas de determinismo pareçam opostas, elas partilham de uma premissa fundamental: ambas são essencialmente “culpabilizadoras da vítima”, localizando o problema dentro do indivíduo, que deve ser talhado para se encaixar na ordem social que ele ou ela tão evidentemente não corresponde no presente.
 
Os autores também abordam a sociobiologia, ou o que foi transformado mais recentemente em psicologia evolutiva — que também representa uma forma de determinismo genético ou biológico. Os autores miram, particularmente, em E. O. Wilson, autor do livro de 1975 Sociobiologia: uma nova síntese. Wilson usou comportamento animal e de muita especulação para identificar os traços comportamentais humanos que, ele alega, permitiram maior sucesso reprodutivo e, portanto, foram mantidos na população. Wilson argumentou, escrevem os autores, “que territorialidade, tribalismo e xenofobia são de fato parte da constituição genética humana, tendo sido erigidos nesta por milhões de anos de evolução”. Os autores citam a afirmação de Wilson de que “mesmo nas mais livres e mais igualitárias das sociedades futuras, homens provavelmente continuarão a desempenhar um papel desproporcional na vida política, nos negócios e na ciência”.

Os autores identificam vários erros fatais na sociobiologia. Primeiramente, a sociobiologia faz escolhas arbitrárias e não-ditas sobre o tamanho da unidade de seleção. Se o queixo humano moderno não é selecionado nem a favor nem contra, mas é meramente um produto de outras pressões seletivas, o quão mais difícil seria, então, identificar um comportamento isolado ou agrupamentos de comportamentos que poderiam ser independentemente sujeitos à seleção natural.

Em segundo lugar, eles fazem de conceitos modernos e relações sociais uma coisa, ou seja, reificam-nos, e em seguida, projetam-nos de volta ao passado. A tendência a propriedade privada de horda, por exemplo, não pode ter sido selecionada a favor ou contra em sociedades pré-classe porque tal tendência, e tal forma de propriedade, não existia. Sociobiólogos também usam métodos circulares de argumentação: pegando metáforas derivadas de relações sociais humanas, aplicando a outras espécies e, daí, usando essa observação para “provar” sua naturalidade à vida humana. Por exemplo, eles veem sociedades de formigas, chamam-nas de sociedades escravocratas, e depois dizem que escravidão é uma parte da natureza. Por fim, eles tendem a agrupar comportamentos, de forma a confundir ao invés de elucidar a questão. Agressão pode ser qualquer coisa desde uma pessoa discutindo sobre uma vaga de estacionamento até um soldado profundamente relutante, que só queria pagar sua universidade, servindo no Iraque.

Contra todas as críticas ao reducionismo e a biologia determinista, os autores apresentam uma visão diferente, uma que não responde a questão “nurture versus nature”, mas que rejeita essa dicotomia como sendo inútil para o entendimento do mundo. Eles lembram o leitor que organismos são tanto um produto das forças do ambiente como também o modelam de volta. O exemplo mais simples é encontrado nas bactérias; quando elas decompõem os carboidratos eles podem fazer ácido, por exemplo, queijo, mas eventualmente o ambiente torna-se ácido demais e daí elas nadam para outro lugar. Então, seria nature ou nurture que teria causado o comportamento de nadar? Agora traduzindo esse preceito para humanos: desenvolvimento — e certamente o desenvolvimento psíquico humano — deve ser visto como o co-desenvolvimento do organismo e seu ambiente, pois estados mentais têm um efeito no mundo externo através da ação humana consciente.
 
Como os autores explicam “nature vs. nurture”:

Nós rejeitamos essa dicotomia. Nós afirmamos que não podemos pensar em nenhum comportamento social humano que seja erigido em nossos genes de modo que não possa ser modificado e moldado por condicionamento social. Mesmo atribuições biológicas como comer, dormir e sexo são enormemente modificados pelo controle consciente e condicionamento social. O impulso sexual, em particular, pode ser abolido, transformado, ou aumentado por eventos da historia de vida. Ainda sim, ao mesmo tempo, negamos que seres humanos sejam nascidos tabulae rasae [“folhas em branco”], o que eles evidentemente não são, e que seres humanos individuais sejam simples espelhos das circunstâncias sociais. Se esse fosse o caso, não poderia haver evolução social.

No lugar de uma abordagem reducionista, determinista para compreender a sociedade humana, nós devemos tomar uma abordagem integrada e dialética que inclua tanto a nossa incrível plasticidade biologicamente recebida, e nossa própria capacidade de remodelar profundamente o ambiente ao nosso redor.

O debate sobre determinismo biológico está longe do fim. Em maio, saiu um artigo na prestigiada revista Nature Genetics afirmando haver identificado dezoito áreas no genoma humano que estão “influenciando a inteligência humana”. Mas, bem como seus antecessores, eles tiveram sérios problemas metodológicos. Estou ansioso por uma nova geração de pessoas lendo Not in Our Genes para que possamos juntos montar uma poderosa resposta.

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[0] Tradução: Ramon Frias, LavraPalavra.
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Liberais conservadores evolucionistas: Bagehot, Stephen e Spencer



por José Guilherme Merquior

Nem todas as desconfianças sobre a democracia eram burkianas. As décadas de 1860 e 1870 testemunharam também outra espécie de liberalismo conservador: a espécie utilitária. Tal era posição de Walter Bagehot (1826-1877), um banqueiro, economista, jornalista e teórico político que editou The Economist desde 1861 até morrer. Bagehot vinha de uma família bancária provincial não-conformista, e foi educado no University College benthamita de Londres. Em seu livro The English Constitution (1867), exprimiu receios de que, com a próxima extensão da franquia (que efetivamente se materializou em 1867 e 1884), ambos os partidos, conservador e liberal, lutariam pelo apoio dos trabalhadores — algo que Bagehot encarava como um “perigo” para a liberdade.
 
Com Maine, Bagehot colocou a evolução social contra o progresso democrático. Ele dividiu sua lealdade entre inovação e estabilidade, recorrendo ao darwinismo social para frear a democracia. A estabilidade, disse ele sem rodeios, apoiava-se numa imensurável estupidez; num conjunto de hábitos formado por práticas sociais sedimentadas por força do estranho prestígio de instituições, para outros efeitos inúteis, como a monarquia ou os Lordes (as partes “dignificadas” em contraposição às partes “eficientes” da constituição). Por que motivo, na verdade, perguntou ele, deviam “uma viúva isolada e um jovem desempregado” (a saber, a rainha Vitória e o príncipe de Gales) atrair tanta atenção? Se o faziam era porque a Inglaterra “não podia ser governada” sem o efeito estupidificante da coroa. Igualmente, as classes governantes podiam permanecer no topo mediante astuciosas práticas eleitorais, manipulando os aspectos dignificados da ordem política para conseguir respeito aos poderes em vigor. Em Physics and Politics (1872) Bagehot conferiu a esse maquiavelismo cético uma torção darwinista: ele representou o êxito social e nacional como exemplos da “sobrevivência do mais capaz” e apoiou a função social da força junto à fraude institucional.

Essa espécie de liberalismo utilitário conservador de fala franca tornou-se um tanto maligna na obra do juiz James Fitzjames Stephen (1829-1894), irmão mais velho de Leslie Stephen e tio de Virginia Woolf. Grande codificador da lei penal, Stephen recebeu uma educação igual à de Mill em Cambridge, embebendo a Logic e os Princípios de economia política de Mill. Mas impacientou-se com o tardio moralismo de Mill e não gostava da sentimentalidade vitoriana, deplorando que o homem estava-se tornando cada vez “mais sensível e menos ambicioso”. Alguns de seus obiter dicta são boas máximas de áspero individualismo, como “Não é o amor que desejamos da grande massa da humanidade, mas respeito e justiça”. Mas ai de nós!, ele pendeu demasiado para o outro lado. Seu ensaio contra Mill, Liberty, Equality, Fraternity (1873), zombou de todas as três coisas, afirmando que a força, e não a liberdade, governa a vida social: os homens devem ser coagidos a serem honestos por castigos legais da espécie mais dura. Stephen criticou Mill por ter uma visão demasiado favorável da natureza humana. Mas a representação alternativa bestial de Stephen foi menos um aprofundamento do que uma patologia do liberalismo. Depois de algumas campanhas apaixonadas em favor de açoites nas escolas e, é claro, a pena de morte, o juiz Stephen (que paradoxalmente era um tanto inteligente no tribunal) terminou seus dias num hospital de doentes mentais — uma glosa apropriada do desequilíbrio que estava transformando o utilitarismo de um estado de espírito libertador em estado de espírito punitivo.

A posição conservadora liberal de longe mais influente no fim do século foi articulada pelo pai do evolucionismo como uma ideologia geral, Herbert Spencer (1820-1903). Spencer nasceu no Derby industrial, num lar wesleyano, e seguiu então a engenharia. Torno-se um colaborador do The Economist. Toda a sua vida, apegou-se tenazmente a uma ideia minimalista de Estado e uma forma maximalista de liberismo. Também era um individualista extremo e um verdadeiro herdeiro do desprezo benthamita pelo privilégio aristocrático e pela hierarquia espiritual. Contudo, houve pelo menos duas fases no caminho que Spencer seguiu para justificar seu individualismo, seu antiestatismo, e seu liberismo.

O livro do jovem Spencer Social Statistics (1850) revela uma teoria de direitos naturais extraída de William Godwin (1756-1836), autor de Political Justice (1793). Godwin é geralmente tido na conta do pai do anarquismo inglês e, como pai de Mary Shelley, avô de Frankenstein; seu ponto de partida foi o proto-anarquismo de Thomas Paine, para quem a sociedade era um bem, mas o governo um mal. A doutrina dos direitos naturais foi posta de lado por Bentham (“tolices com base em nada”), mas Spencer formulou três objeções contra o utilitarismo.

Em primeiro lugar, Spencer acreditava que o “cálculo da proporção da felicidade”, a aferição da felicidade geral do maior número, era uma tarefa impossível. Em segundo lugar, rejeitou firmemente o reformismo benthamita, já que significava um conjunto de mudanças estatais (legais e governamentais). Em terceiro lugar, afirmou a preexistência de direitos, em vez de insistir, como fizera Bentham, em que os direitos são criados pela lei. Usando estas pressuposições, o jovem Spencer extraiu de uma “lei de liberdade igual” a propriedade privada e o laissez-faire, o sufrágio universal, e um “direito de ignorar o Estado” — no fundo, um direito individualista de retirar-se, tanto mais razoável porque, como disse ele, “na medida em que progride a civilização, os governos decaem”.

Aos olhos de Spencer, a única função dos governos é a defesa dos cidadãos contra agressores, tanto estrangeiros como domésticos. Mas quando examinou a legislação liberal depois de 1860, Spencer achou que o governo, de qualquer forma, não se tinha confinado a essa função legítima. Patrocinando a promoção do bem-estar por meio da legislação industrial e muitas outras medidas filantrópicas, os liberais haviam perdido de vista a posição tradicional do liberalismo contra a coação. A revelação dessa traição liberal forma o cerne do livro The Man Versus The State, o best-seller de Spencer de 1884.

Na opinião de Spencer, a ampliação da legislação de bem-estar — “um excesso de legislação”, como afirmou num ensaio no final da década de 1860 — só podia levar ao despotismo. “Embora já não tenhamos ideia de coagir os homens para o seu bem espiritual”, escreveu ele, “ainda nos julgamos chamados a coagi-los para o seu bem material”. Aborrecido pela aquisição de casas para a municipalidade e pela propriedade estatal de ferrovias, Spencer deplorou em voz alta a perspectiva de “usurpação pelo Estado” de todas as indústrias, que, em sua opinião, ameaçava “suspender o processo de adaptação” e seu resultado, a seleção natural. Além disso, o crescimento do Estado acarretava burocracia, e a burocracia era para ele algo de intrinsecamente corrupto. Por outro lado, o estatismo de bem-estar também era imoral. A fé moderna no governo não passava de “uma forma sutil de fetichismo”.

Do lado da razão, por contraste, encontrava-se a evolução, “a disciplina beneficente embora severa” a que estava sujeita toda a vida, e que funcionava mediante o duro método da sobrevivência dos mais aptos. Como muitas vezes foi observado, a teoria social de Spencer torceu o darwinismo porque afirmou menos que o conflito evolucionário ocorreu na sociedade como ocorre na natureza do que devia funcionar para que a civilização progredisse. Numa história de ideias liberais, no entanto, o importante é que, na medida em que ele aderiu inteiramente ao evolucionismo, abandonou a primeira preocupação igualitária com a liberdade geral e o sufrágio universal. Passou a ser um crítico severo do governo majoritário; chamou a crença em maiorias parlamentares de a maior superstição política da época; e declarou que, no futuro, a função do verdadeiro liberalismo seria “impor um limite ao poder do Parlamento”.

Assim, quando o darwinismo social prevaleceu completamente sobre sua primitiva teoria de direitos, Spencer alcançou uma espécie de utilitarismo social. Mas esse utilitarismo social resultou, no seu caso, precisamente no oposto da variedade benthamita: uma desconfiança de democracia representativa. No final do século, em toda parte em que se sentiu a extensa influência de Spencer, o liberismo e o liberalismo foram vistos como coisas contrárias à democracia. Dos grande magnatas como John D. Rockefeller e Andrew Carnegie aos intelectuais liberais na Europa e nas Américas, o conceito de evolução, com a sobrevivência dos mais aptos, foi citado infinitamente. Muitos outros, de poetas vitorianos a populistas russos, não obstante, puseram a ideia em dúvida. Um dos pais da sociologia americana, William Graham Summer (1840-1910), da Universidade de Yale, declarou celebremente que, a despeito de toda a sua dureza, a lei da sobrevivência do mais apto não era obra do homem e, portanto, não podia ser ab-rogada pelo homem.

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MERQUIOR, J. G. O liberalismo: antigo e moderno. Trad. Henrique de Araújo Mesquita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991, p. 115-119.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

O ressurgimento do determinismo biológico na era neoliberal



por Pankaj Mehta
Jacobin/2014
A história está repleta de exemplos horripilantes de usos indevidos da teoria da evolução para justificar o poder e a desigualdade. Bem-vindos a uma nova era de determinismo biológico.
Se você quiser entender por que os humanos travam guerras, existe um gene para isso. Quer entender por que os homens estupram as mulheres? Existe um gene para isso. Quer entender por que as “características nacionais” do Leste Asiático, do Ocidente e da África são diferentes? Esses genes também estão cobertos. Na verdade, se formos acreditar na mídia mais popular, existe um gene para quase todas as desigualdades e injustiças na sociedade moderna.

O determinismo genético e seu primo mais feio, o darwinismo social, estão de volta. Armados com grandes conjuntos de dados genômicos e um arsenal de técnicas estatísticas, um pequeno, mas barulhento grupo de cientistas está determinado a caçar a base genética de tudo o que somos e fazemos.

A relação entre genética e determinismo biológico é quase tão antiga quanto o próprio campo de estudos. No fim das contas, um dos mais modernos institutos de genética, o Cold Spring Harbor Laboratory, começou como um instituto de eugenia cujas atividades incluíam “fazer lobby por uma legislação eugênica para restringir a imigração e esterilizar os ‘defeituosos’, educar o público sobre saúde eugênica e disseminar as ideias eugênicas de maneira ampla”.

A onda mais recente de determinismo biológico continua essa longa história, mas difere do passado de maneira crucial. Estamos no início da era genômica – uma época em que os avanços da biologia molecular tornam possível medir com precisão diferenças genéticas mínimas entre os humanos. Combinado com o fato de que vivemos em uma nova Era Dourada da desigualdade, onde uma pequena elite global tem acesso a (e precisa de justificativas para) quantidades sem precedentes de riqueza e de poder, as condições estão maduras para um perigoso ressurgimento do determinismo biológico.

Se em 2014 o preço para sequenciar um genoma (identificar os 6 bilhões de As, Cs, Ts e Gs que definem o DNA de um indivíduo) já havia chegado a $5000, no ano seguinte já havia despencado para $1000 e continua em queda, com alguns laboratórios já tendo oferecido o serviço abaixo de $200 em algumas situações específicas. Em breve, vai custar menos ainda – muito menos. Dizem que este é um momento revolucionário. Com acesso a informações genéticas detalhadas, os profissionais médicos e conselheiros genéticos em breve serão capazes de identificar as doenças às quais estamos mais predispostos e ajudar a prevenir ou minimizar seu impacto por meio da “medicina personalizada”.

O conhecimento científico extraído desses dados não tem preço. Estamos começando a entender como os vírus evoluem, as mutações genéticas que dão origem ao câncer e a base genética da identidade celular. A revolução do sequenciamento nos permitiu estudar a base molecular da regulação genética e identificar novos atores incríveis no processo, como RNAs não codificantes e modificações da cromatina. Todas as nossas ideias sobre a biologia estão sendo reformuladas.

Um dos resultados mais impressionantes dos novos estudos de sequenciamento é como os seres humanos na realidade são semelhantes – diferimos uns dos outros apenas em 0,1% do nosso DNA. Ainda assim, esse 0,1% do genoma dá origem às variações que vemos entre as pessoas em características como cor da pele, altura e tendência para doenças. Um objetivo importante da genética moderna é relacionar uma variante genômica particular a uma característica ou doença específica. Para fazer isso, os cientistas estão desenvolvendo novas ferramentas estatísticas poderosas para analisar uma grande quantidade de dados de sequências de populações ao redor do mundo.

A relação entre genes e características observáveis é indiscutível. Pais altos tendem a ter filhos altos; pais de cabelos escuros têm filhos de cabelos escuros. Que os traços são herdados ficou claro desde que Mendel codificou suas famosas Leis da Herança, inferidas de observações estatísticas de mais de 29.000 pés de ervilha. Na genética mendeliana clássica, genes separados que codificam características distintas são passados independentemente uns dos outros para seus descendentes. Assim, há um mapeamento nítido entre a informação genética, ou genótipo, e as características observáveis, ou fenótipo. Um único gene (tecnicamente um locus ou uma localização genética) codifica para uma única característica e não é influenciado pelas outras características que uma pessoa possui. Além disso, os fatores ambientais têm pouca influência sobre a maioria das características para Mendel. Exemplos famosos que se enquadram neste arcabouço incluem a anemia falciforme e a fibrose cística, cada uma causada por uma mutação em um gene específico.

No entanto, agora já está evidente que as suposições simples subjacentes à genética de Mendel não são aplicáveis à maioria das características e doenças. Quase todos os fenótipos, desde altura e cor dos olhos até doenças como diabetes, surgem de interações extremamente complexas entre vários genes (loci) e o ambiente. Em contraste com a genética mendeliana, onde é possível identificar facilmente o gene que codifica uma característica particular, para muitas características não existe um mapeamento simples de genótipo para fenótipo.

O enorme volume de dados de sequências de DNA agora disponível convenceu os cientistas de que eles podem superar esse desafio. Para isso, eles estão desenvolvendo novas ferramentas científicas e estatísticas voltadas para analisar e extrair informações genéticas a partir dos dados de sequenciamento. O objetivo desses estudos de associação em nível genômico (GWAS na sigla em inglês, de “genome-wide association studies”) é fornecer um modelo para decodificar as informações contidas em nosso DNA e para identificar a base genética de características e doenças complexas. Os GWAS são agora um elemento fundamental da genética populacional moderna. Isso se reflete no aumento astronômico do número de GWAS publicados na última década e meia, na casa de um dígito em 2005 para mais de 1.300 uma década depois. Existem GWAS sobre altura corporal, peso ao nascer, doença inflamatória intestinal, como as pessoas respondem a determinados medicamentos ou vacinas, câncer, diabetes, doença de Parkinson e muito mais. Na verdade, existem tantos GWAS que foram criados catálogos especializados para ajudar os cientistas a visualizar os resultados de todos esses estudos.

Dada a crescente prevalência dos GWAS, é útil explicar a lógica básica subjacente a esses estudos. Os conceitos de variações fenotípicas e genéticas desempenham um papel central nos GWAS. A variação fenotípica é definida como a variação de uma característica em uma população (como a distribuição de alturas na população de homens americanos). Observe que, para definir a variação fenotípica, devemos especificar uma população. Esta é uma escolha a priori que deve ser feita para construir um modelo estatístico. A escolha da população é frequentemente uma fonte importante de preconceitos e vieses, através dos quais premissas sociais ocultas penetram nos GWAS – isso é especialmente verdadeiro para estudos que tentam entender a variação genética entre grupos “raciais”.

Os GWAS tentam explicar estatisticamente a variação fenotípica observada em termos da variação genética na mesma população. É aqui que brilha a genômica moderna. Enquanto na era pré-genômica era preciso trabalhar duro para medir a variação genética em um único locus, agora é possível consultar um banco de dados disponível publicamente para obter a variação genética de milhares de indivíduos por todo o genoma. A maioria dos GWAS se concentra em polimorfismos de nucleotídeo único (SNPs, na sigla em inglês de “single-nucleotide polymorphisms”): variações da sequência de DNA que ocorrem em uma única base no genoma (por exemplo, AAGGCT vs. AAGTCT). Até 2014 os cientistas já haviam observado aproximadamente 12 milhões de SNPs em populações humanas. Esse número pode parecer incrivelmente grande, mas existem 6 bilhões de bases no DNA humano. Portanto, apenas 0,2% de todas as bases de DNA apresentam qualquer variação em todas as populações humanas amostradas. Para uma característica como a altura, existem cerca de 180 SNPs conhecidos por contribuir para a variação da altura humana.

O objetivo dos GWAS é relacionar a variação genotípica à variação fenotípica. Isso geralmente é expresso em um conceito denominado de herdabilidade, que busca dividir a variância fenotípica em um componente genético e outro ambiental. A grosso modo, a herdabilidade é definida como a fração da variação fenotípica que podemos atribuir à variação genética. Uma herdabilidade de zero significa que toda a variância fenotípica é ambiental, enquanto uma herdabilidade de um significa que ela é inteiramente genética.

Por trás do conceito de herdabilidade está todo um mundo de suposições simplificadas sobre como funciona a biologia e como os genes e o ambiente interagem, todas filtradas por modelos estatísticos cada vez mais complicados e indiferentes. A herdabilidade depende das populações escolhidas e dos ambientes sondados pelos experimentos. Mesmo a distinção nítida entre ambiente e genes é, em algum nível, artificial. Como aponta Richard Lewontin:

A própria natureza física do meio ambiente, no que tem de relevante para os organismos, é determinada pelos próprios organismos […] Uma bactéria que vive em líquido não sente a gravidade porque é pequena demais […] mas seu tamanho é determinado por seus genes, portanto, é a diferença genética entre nós e as bactérias que determina se a força da gravidade é relevante para nós.

Tudo isso quer dizer que embora a herdabilidade seja um conceito útil, é uma abstração – que depende inteiramente dos modelos estatísticos (com todas as suas suposições e preconceitos) que usamos para defini-la.

Mais importante para nossos propósitos, mesmo para uma característica extremamente hereditária como a altura, o ambiente pode mudar drasticamente as características observadas. Por exemplo, durante a Guerra Civil da Guatemala, esquadrões da morte e paramilitares apoiados pelos EUA brutalizaram a população rural indígena da Guatemala, resultando em desnutrição generalizada. Muitos refugiados maias fugiram para os EUA para escapar da violência. Comparando a altura de crianças maias guatemaltecas com as maias estadunidenses em idades entre 6 e 12 anos, os pesquisadores descobriram que as estadunidenses eram 10,24 centímetros mais altas do que suas colegas guatemaltecas, em grande parte devido à nutrição e ao acesso a cuidados de saúde. Em comparação, o gene que mais influencia a altura, o gene do fator de crescimento GDF5, está associado a mudanças na altura de apenas 0,3 a 0,7 centímetros, e isso apenas para participantes com ascendência europeia.

Influências ambientais tão dramáticas são lugar comum. Por exemplo, considera-se que a herdabilidade do diabetes tipo II, ajustada para idade e Índice de Massa Corporal (IMC), está entre 0,5 e 0,75 (um pouco menos do que a altura, mas como discutido acima, este número deve ser tomado com um certo ceticismo). Atualmente, os GWAS são capazes de explicar apenas cerca de 6% dessa herdabilidade, sem que hajam loci (genes) particularmente preditivos para saber se um indivíduo irá desenvolver diabetes. Em contraste com a genética, um IMC mórbido – uma medida simples de quão acima do peso uma pessoa está – aumenta as chances de desenvolver diabetes em quase oito vezes.

A mesma história se aplica ao QI – um elemento básico dos estudos genéticos sobre “inteligência”. Colocando de lado por um momento a validade dos testes de QI, os estudos mostram um aumento longo e sustentado nas pontuações de QI ao longo do século XX (chamado de “Efeito Flynn”), apontando para a importância do ambiente em vez da genética na determinação do QI.

A esquizofrenia é outro exemplo. Em seu excelente blog Cross-Check, John Horgan discute o CMYA5, considerado o “gene da esquizofrenia” na imprensa popular. Ele ressalta que, se você carrega esse gene, o risco de desenvolver esquizofrenia aumenta em apenas 0,07% a 1,07%. Em contraste, “se você tem um parente de primeiro grau com esquizofrenia, como um irmão, sua probabilidade de se tornar esquizofrênico é de cerca de 10%, o que é mais de 100 vezes o risco adicional de ter o gene CMYA5”. Resultados como esse não são incomuns. O campo de estudos na verdade tem estado muito preocupado com a falta de poder preditivo dos GWAS (frequentemente discutida no contexto do problema da “herdabilidade ausente”).

Apesar do sucesso limitado dos GWAS, é de se duvidar que as alegações de determinismo genético venham a diminuir no futuro próximo. A principal razão para isso é o grande volume de novos dados genéticos sendo gerados atualmente. Esse dilúvio de dados é o sonho molhado de qualquer determinista biológico. Caso você ache que estou exagerando, aqui está uma citação de um estudo recente sobre “a arquitetura genética das preferências econômicas e políticas” publicado no PNAS, um importante periódico científico. Não surpreendentemente, os SNPs que eles identificaram “explicam apenas uma pequena fração da variância total”. Longe de desanimar com esses resultados, os autores concluem seu resumo com uma nota otimista:

Esses resultados transmitem uma mensagem de advertência sobre se, como e quando os dados genéticos moleculares poderão contribuir para, e potencialmente transformar, as pesquisas em ciências sociais. Propomos algumas respostas construtivas aos desafios inferenciais colocados pelo pequeno poder explicativo de SNPS individuais.

A pura arrogância fala por si mesma. Dada a dificuldade de usar os GWAS para explicar a altura – uma característica facilmente quantificável e mensurável – é evidente o absurdo da afirmação da identificação da base genética de características complicadas de se definir, temporalmente variáveis e difíceis de se quantificar, como inteligência, agressividade ou preferência política.

Independentemente disso, o manual do determinista genético na era da genômica é transparente:
  • colete quantidades massivas de dados sequenciais; encontre um de difícil definição (como preferência política);
  • encontre um gene que esteja estatisticamente super-representado na subpopulação que “possui” essa característica;
  • declare vitória;
  • ignore o fato de que esses genes não explicam de verdade a variação fenotípica da característica.
  • em vez disso, afirme que, se ao menos tivéssemos mais dados, todas as estatísticas fariam mais sentido;
  • generalize ainda mais esses resultados para o nível das sociedades como um todo e afirme que eles explicam a base genética fundamental do comportamento humano;
  • escreva um comunicado à imprensa e espere que a mídia escreva críticas elogiosas;
  • repita com outro conjunto de dados e outra característica.
O determinismo biológico parece plausível precisamente porque dá a ilusão de que se baseia em observação científica. Nenhum cientista discorda de que os blocos básicos de construção de um organismo são codificados em seu material genético e que a evolução, por meio de alguma combinação de deriva e seleção genética, moldou esses genes. No entanto, tentar atribuir a um conjunto de genes o comportamento humano, seja comer um saco inteiro de batatas fritas ou travar uma guerra, é nitidamente um exercício quixotesco.

Como Nigel Goldenfeld e Leo Kadanoff imploram em um belo artigo discutindo sistemas complexos: “Use o nível descritivo correto para captar os fenômenos de interesse. Não modele uma escavadeira com base nos seus quarks.” Embora seja certamente verdade que todas as propriedades de uma escavadeira resultam das partículas que o compõem, como quarks e elétrons, é inútil pensar sobre as propriedades de uma escavadeira (sua forma, sua cor, sua função) em termos dessas partículas. A forma e a função de uma escavadeira são propriedades emergentes do sistema como um todo. Assim como você não pode reduzir as propriedades de uma escavadeira às dos seus quarks, você não pode reduzir os comportamentos e características complexas de um organismo aos seus genes. Marx defendeu o mesmo ponto quando afirmou que “diferenças meramente quantitativas, para além de um certo ponto, passam a representar mudanças qualitativas.”

Se as bases filosóficas e científicas das afirmações do determinismo genético são tão problemáticas, por que um pensamento tão desleixado é recompensado com artigos de primeira página na seção de ciência do New York Times? Para responder a isso, devemos considerar não apenas a Ciência, mas a Política.

Vivemos em uma era em que as corporações obtêm lucros sem precedentes, uma minoria da elite acumula enormes riquezas e a desigualdade está atingindo níveis próximos aos da Idade de Ouro da burguesia do século XIX. As contradições entre o capitalismo neoliberal e os impulsos democráticos estão sendo expostas continuamente. As reivindicações de oportunidades iguais subjacentes a grande parte do pensamento liberal estão se tornando uma farsa. A incongruência entre o que o capitalismo professa ser e a realidade do capitalismo está se tornando cada vez mais aparente.

O apelo do determinismo biológico é que ele oferece explicações científicas plausíveis para as contradições sociais engendradas pelo capitalismo. Se o diabetes tipo II for reduzido ao problema da genética (o que certamente ele é, até certo ponto), então não temos que pensar sobre o aumento da obesidade e suas causas subjacentes: o monopólio do agronegócio, desigualdade de renda e disparidades na qualidade dos alimentos com bases de classe. Combine isso com a prevalência de soluções para as doenças baseadas em medicamentos, como são impulsionadas pela indústria farmacêutica e não é nenhuma surpresa que tenhamos a impressão de que fenômenos sociais complexos sejam redutíveis a simples fatos científicos.

Parafraseando o grande crítico literário Roberto Schwarz, o determinismo biológico é uma ilusão socialmente necessária e bem fundamentada na aparência. Assim como a arte e a literatura, a Ciência “é moldada historicamente e […] registra o processo social ao qual deve sua existência.” Os cientistas herdam os preconceitos das sociedades em que vivem e trabalham. Em nenhum lugar isso é mais óbvio do que na encarnação moderna do determinismo biológico com suas premissas decididamente neoliberais sobre os humanos e as sociedades.

A história da biologia está repleta de exemplos horripilantes de usos indevidos da genética (e da teoria da evolução) para justificar o poder e a desigualdade: justificativas evolutivas para a escravidão e o colonialismo, explicações científicas para o estupro e o patriarcado e explicações genéticas para a superioridade inerente das elites dominantes. Devemos trabalhar de maneira incansável para garantir que a história não se repita na era da genômica.
 
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[0] Artigo original: There's a Gene for That”. Tradução de Everton Lourenço, Jacobin Brasil, 2021.
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