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quarta-feira, 28 de agosto de 2024

ARTE REALISTA| Aplicando nos Fundos

Sinopse:
É app, é juros, é o fim do dinheiro
É o gerente negando
O empréstimo inteiro
É o consignado
O cartão sem limite
É o jovem chorando,
O Serasa que apite
É o fanzoca do banco
Sem investimento
É o pix, é o LIS
É o financiamento
É a taxa Selic
É o Trader Youtuber
É o limite estourando
Com delivery e Uber
São as taxas fixadas
Bloqueando o cartão
É promessa de dívida
Sem negociação
(Porta dos Fundos)

Aplicando nos fundos (farsa, BRA, 2024), de Luanne Araujo, Rodrigo Magal e Vini Videla. (Compilado)

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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

ARTE REALISTA| Semáforo

Semáforo
Hélio Flanders

Hoje é terça-feira
O céu borrou a cor
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Ó minha mão do céu
Ó meu pé do chão
Eu não ouço vocês
Eu não ouço vocês (mais alto)
Eu não creio em vocês

Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Só acredito
Eu só acredito

Hoje é terça-feira
E o céu se põe
Debaixo do tapete um tesouro
Eu não acredito
Eu não acredito
Eu não acredito
Eu não acredito não

Só acredito no semáforo
Só acredito no avião
Eu acredito no relógio
Acredito no coração
Não, não, não

Hoje é terça-feira
Hoje é terça-feira
Todos meus amigos (3x)
Todos seus amigos
Todos meus amigos (3x)
Voam, voam...voam

Com olhos de anis
Com asas de fogo
E meus olhos cheios
De mágoa então

Hoje é terça-feira
Hoje é terça-feira
Todos meus amigos (3x)
Todos seus amigos
Todos meus amigos (3x)
Todos meus amigos... querem morrer!

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Vanguart (BRA, 2007) - Vanguart.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Marx, a tradição liberal e a construção histórica do conceito universal de homem


 por Domenico Losurdo
 
Os “direitos sociais e econômicos” e a Revolução de Outubro

Criticando a teoria da “liberdade da necessidade” realizada por Roosevelt e depois, inserindo-a em uma linha de continuidade com a teoria dos “direitos sociais e econômicos”, que encontra a sua expressão na Declaração Universal dos Direitos do Homem, adotada pela ONU em 1948, Hayek (1976:103) observa: “Este documento é abertamente uma tentativa de fundir os direitos da tradição liberal ocidental com a concessão completamente diferente da revolução marxista russa”. A afirmação pode parecer paradoxal mas, para examinar sua validade, convém primeiro interrogar a crítica fundamental dirigida por Marx à sociedade do seu tempo. No centro da discussão está a relação liberdade-igualdade: além de um certo limite, a desigualdade nas condições econômico-sociais dissolve a liberdade, mesmo que esta permaneça solenemente garantida e consagrada no plano jurídico-formal.

Marx se apoia nas leituras de Hegel, a quem devemos uma apresentação clara e persuasiva do problema que examinamos: quem sofre uma fome desesperada, além do perigo de morrer de inanição, está em “total carência de direitos”, ou seja, numa condição que, em última análise, não difere substancialmente daquela do escravo (Losurdo, 1992, cap. VII).

O reconhecimento deste fato parece emergir da própria tradição liberal, mas emerge como confissão involuntária. Por que o trabalhador assalariado deve ser excluído, segundo Constant, dos direitos políticos? Está claro: “Os proprietários são senhores da sua existência porque podem negar- lhe o trabalho” (Constant, 1957: 149). Durante a sua viagem na Inglaterra de 1833, diante do espetáculo de uma assustadora miséria em massa, num contraste gritante com a riqueza de poucos, (Tocqueville, 1951k: 81) deixa escapar uma exclamação: “Deste lado o escravo, do outro o patrão; ali, a riqueza de alguns, aqui a miséria da maioria”. Eis uma relação entre igualdade e liberdade, ou melhor, entre desigualdade material levada ao extremo e substancial escravidão. Mas a tese implícita na exclamação que escapou em um momento de descuido é depois rejeitada e sistematicamente refutada pelo teórico liberal que contrapõe liberdade e igualdade, até acusar o movimento socialista (e a própria Revolução Francesa) de sacrificar a primeira no altar da segunda: “Quem na liberdade procura qualquer outra coisa além desta, é feito para servir” (Tocqueville, 1951l:217). A “liberdade da necessidade” teorizada por Roosevelt é para Tocqueville tão intolerável como para Hayek, porque remete, de fato, a outra tradição política, a autores vistos com suspeita ou hostilidade pela tradição liberal. Na França reenvia a Rousseau e ao jacobinismo; na Alemanha a Hegel, que foi o primeiro a falar de “direitos materiais” (Losurdo, 1992), e sobretudo a Marx, que recolhe e une as heranças da filosofia clássica alemã e da veia rousseauniana-jacobina.

E hoje? Não apenas a ONU, que talvez com um pouco de boa vontade e para grande satisfação de Hayek, se poderia tentar excluir do Ocidente “autêntico”, fala, de um modo mais ou menos explícito de “direitos sociais e econômicos”. Também se poderia duvidar da autenticidade ocidental da Constituição da República Italiana (nascida com a contribuição decisiva dos socialistas e comunistas), que também institui uma relação entre liberdade e remoção dos “obstáculos de ordem econômica e social” que a anulam ou ameaçam anulá-la. Deixemos de lado a ONU e a Itália e façamos referência apenas ao mundo anglo-saxão. Leiamos um autor como Rawls. Mesmo este teórico norte-americano que exige a subordinação da igualdade à liberdade sobrepõe uma importante cláusula limitativa ao princípio formulado dizendo que este apenas deve ser considerado válido “a partir de um nível mínimo de renda” (Rawls, 1971:542). Então, de fato, perde a validade, ao menos para o Terceiro Mundo (a maior parte da humanidade). Se levarmos ao pé da letra a cláusula limitativa de Rawls, a primazia da liberdade sobre a igualdade estará comprometida nos próprios países capitalistas avançados, em particular nos Estados Unidos, onde se assiste “ao aumento da porcentagem dos pobres” (Dahrendorf, 1987:133) e ao aumento dos bolsões de miséria e até de desnutrição[1].

Continuo considerando mais convincente a formulação de Marx (e Hegel) sobre este problema: abaixo de “um nível mínimo de renda”, não balança ou cai por terra a primazia da liberdade em relação à igualdade: a liberdade deixa de existir concretamente. Ou seja, a construção da liberdade é indissolúvel da construção de um mínimo de igualdade.

Neste sentido, Roosevelt associa a “liberdade da necessidade” às outras liberdades civis e políticas, também fundamentais. E, apesar da formulação diferente — e menos rigorosa —, também emerge claramente da cláusula limitadora do princípio de Rawls: a realização concreta da liberdade não se produz num espaço impessoal, sem relação com as condições materiais de vida, com um “nível mínimo de renda”. Reaparece, então, este princípio de “liberdade da necessidade” no qual, com razão, Hayek, percebe o socialismo e o marxismo e, com típico exagero de um conservador, grita, então, contra o perigo do bolchevismo!

A crítica marxiana da sociedade liberal-burguesa e a sua eficácia história

Com inegável rigor e coerência, Hayek desconfia de um autor como Rawls (Hayek, 1976:179). Nem sequer os Estados Unidos estão imunes à contaminação socialista do Ocidente, que o teórico neoliberal não se cansa de denunciar. Aliás, exatamente neste país se manifestou o funesto hábito, já difundido na Europa, de usar o termo “liberal” para designar “aspirações de natureza essencialmente socialista”(Hayek, 1987:121). Convém então recorrer a um autor que Hayek destaca sem reservas por sua apologia da “grande sociedade”, como ele a chama, ou “sociedade aberta”, para retomar a expressão de Popper[2]. Pois bem, precisamente neste autor podemos ler:

Mesmo se o Estado protege os seus cidadãos do risco de serem tiranizados pela violência física (como acontece por princípio, sob o sistema do capitalismo desenfreado), ele pode frustrar as nossas finalidades se não consegue nos proteger do abuso do poder econômico. Em um Estado deste tipo, quem é economicamente forte é também livre para tiranizar quem é economicamente fraco e privando-o de sua liberdade. Nestas condições, a liberdade econômica ilimitada pode ser autodestrutiva, da mesma forma que a liberdade física ilimitada; e o poder econômico pode ser tão perigoso como a violência física. De fato aqueles que dispõem de um excedente de mercadorias podem impor a quem tem penúria uma servidão ‘livremente’ aceita, sem a violência (Popper, 1973:124).

Embora inclua Marx entre os “falsos profetas”, até Popper, neste texto, termina assumindo a crítica ao liberalismo: não existe apenas uma coação física, mas também econômica. A dominação econômica e o monopólio ou o controle das “mercadorias” permite “tiranizar” aqueles que estão privados destas mercadorias e vivem em condições de absoluta precariedade econômica. Estes últimos podem ser juridicamente livres, mas estão substancialmente privados de sua liberdade e reduzidos à “servidão”. Inclusive no plano terminológico, as semelhanças são evidentes. A “servidão” à qual Popper se refere, leva a pensar na “escravidão assalariada” da qual falava Marx, a propósito das condições operárias de seu tempo. É claro que as opções políticas dos dois autores são muito diferentes, mas ainda assim, na configuração das relações entre economia e política o acusador do “falso profeta” continua sendo devedor deste último.

Retomemos, de outro ponto de vista, a crítica fundamental que Marx dirige à sociedade burguesa que surge com a Revolução Francesa. Esta “concluiu a transformação das classes políticas em sociais, ou seja, fez das diferenças de classe da sociedade civil apenas diferenças sociais, diferenças da vida privada insignificantes na vida política” (Marx, 1955a: 284). Inclusive na forma mais desenvolvida, onde anula as restrições censitárias do direito eleitoral, o Estado burguês se limita, na realidade, “a fechar os olhos e a declarar que estas oposições reais não tem caráter político, que elas não o afetam” (Marx e Engels, 1955: 101).

O liberalismo de Hayek está sempre convicto de que a polarização, mesmo a de extremas riqueza e miséria, é um fato pertinente apenas à esfera privada. Mas esta convicção é abandonada, de várias maneiras, por Roosevelt, pela ONU, pela Constituição da República Italiana, por Rawls e pelo próprio Popper no fragmento citado acima. Se para Hayek a tirania começa quando o Estado deixa de considerar como meramente privadas as desigualdades, inclusive extremas, que subsistem no nível econômico-social, para Popper, como vimos, é precisamente a falta de intervenção do Estado contra tais desigualdades extremas que permite e consagra uma relação objetiva de tirania e servidão.

Ademais, o teórico da sociedade aberta reconhece a dívida das “democracias modernas” para com o marxismo, quando demonstra a irremediável obsolescência deste último, baseado no fato que as democracias modernas teriam colocado em prática “a maior parte”das reivindicações programáticas do Manifesto do partido comunista, a começar pelo “imposto fortemente progressivo ou proporcional sobre os lucros” (Popper, 1973:141). Como é imprecisa e notável esta formulação que assimila e une dois tipos de taxação muito diferentes! Sem dúvida, dado que se refere ao Manifesto do partido comunista, é possível, que Popper se refira na verdade a “strake Progressvsteuer”, o “forte imposto progressivo” reivindicado no texto de Marx e Engels (Marx, Engels,1955a, 481). Segundo o teórico da sociedade aberta, esta reivindicação seria agora obsoleta, devido ao fato de ter sido amplamente “realizada” nas “democracias modernas”. Na realidade, sobre esta questão nos dias de hoje, ainda continua uma batalha cultural e política. Inclusive Hayek, para denunciar a crise do liberalismo e a intolerável contaminação socialista sofrida pela própria sociedade ocidental, menciona a “imposição fiscal progressiva como meio para conseguir uma redistribuição da renda a favor das classes mais pobres”, (Hayek, 1987:142). Por outro lado, o destaque do nexo entre liberdade e condições materiais de vida é, em Popper, um sinal isolado e uma admissão involuntária da vitalidade das lições de Marx. Se realmente tivesse levado a sério este nexo, o teórico da sociedade aberta não teria feito uma leitura tão maniqueísta da história do século XX, nem teria se lançado com tanta violência contra aqueles intelectuais que, duvidando que “tudo vai bem no Ocidente”, geraram um “grande escândalo” com “insultos” totalmente fora de lugar no âmbito da “nossa sociedade”, de “nossa civilização”, de “nosso belo mundo” (Popper, 1992:92-4).

Hayek se mostra mais rigoroso que Popper: é difícil conciliar a denúncia de Marx como “inimigo da sociedade aberta” e o reconhecimento explícito da dívida desta mesma “sociedade aberta” para com o Manifesto do partido comunista! Por isso Hayek inclui nas contas do socialismo e do “abandono dos princípios liberais” também “a decisão de fazer de todo o campo da seguridade social um monopólio estatal”(Hayek, 1987:145), além do papel dos sindicatos, que minam as raízes do sistema liberal, impedindo que a concorrência determine o preço da força-trabalho e, portanto, destruindo esta peça fundamental da “economia de mercado” que é o “mercado de trabalho concorrencial” (Hayek, 1976:143).

Pode-se falar, como faz Dahrendorf, do “novo liberalismo”, mas a passagem do “velho” para o “novo” não foi indolor e teve como pressuposto gigantescas lutas político-sociais e a assimilação, não espontânea, mas imposta pelos fatos, de elementos centrais da lição de Marx e de outros autores malditos pela tradição liberal. Quando o sociólogo anglo-alemão fala de “direitos sociais”, retoma uma categoria que Hayek já diagnosticou como infectada de socialismo e marxismo. E quando Dahrendorf vê no desemprego e na miséria uma ameaça e inclusive um esvaziamento dos “direitos civis” (Dahrendorf, 1987: 134- 152), fica claro que aproveita as lições marxianas. Às vezes, inclusive no plano terminológico:

A igualdade perante a lei tem pouco significado se não existir sufrágio universal e outras chances de participação política. As chances de participação são apenas uma promessa vazia se as pessoas não têm a posição social e econômica que as coloque em condições de gozar daquilo que as leis e a constituição lhes prometem. Passo a passo, a ideia de cidadania foi dotada de conteúdo. De uma quantidade formal de direitos, a cidadania tornou-se um status, de que fazem parte, além do direito eleitoral, uma renda digna e o direito a ter uma vida civil, inclusive quando se está doente, ou velho, ou desempregado (Dahrendorf, 1987, p. 136).

Aqui reaparece a crítica ao direito “formal”, cara a Marx. Porém, se a liberdade e a igualdade permanecem formais sem o “conteúdo” da “renda digna”, se conclui que a democracia é ainda incompleta mesmo nos países industriais avançados, para não falar no que continua sendo uma miragem nos países de Terceiro Mundo, mesmo que se considerem do Ocidente e do “mundo livre”.

Liberalismo e “teodiceia da felicidade”

Muito mais próximo do liberalismo era o Dahrendorf dos anos 50 ou 60 que formulava a tese de que “a posição social de um indivíduo [depende agora] das metas escolares que ele mesmo tentou alcançar”(Dahrendorf, 1959:122). Certamente o autor se referia aos anos do “milagre econômico” ideologicamente transfigurado, mas, definitivamente, retomava um tema clássico da tradição liberal. Ludwig von Mises afirmou que no capitalismo, “a posição social de cada um depende da própria ação”, de modo que para o eventual “fracasso” o indivíduo não tem mais espaço para “desculpas” e só pode culpar a si mesmo (Mises, 1988: 30). Eis uma tese que, para ser formulada, não necessitou esperar a constituição de uma sociedade desenvolvida. Já no final de 1700, Wilhelm von Humboldt (1792: 117), em uma Alemanha fundamentalmente aquém do capitalismo, afirmava que “a felicidade a que o homem está destinado não é mais que a que lhe provê sua própria força”, ou seja, as suas capacidades. É um pouco a “teodiceia da felicidade”, da qual fala Max Weber:

os dominantes, os possuidores, os vencedores, os sãos, em síntese, “o homem feliz” raramente se contenta pelo simples fato de possuir a própria felicidade. Ele necessita também ter direito a tal felicidade. Quer ser convencido de “merecê-la” e sobretudo de merecê-la frente aos outros. E quer portanto ser também autorizado a crer que os de menos sorte receberam equitativamente apenas aquilo que lhes cabe. A felicidade quer ser ‘legitima’(Weber, 1972: 242)[3].

Deste ponto de vista, um traço implícita ou declaradamente social-darwiniano atravessa a tradição liberal: dado que a miséria não questiona a ordem social existente, os pobres são os fracassados, aqueles que, por causa da sua preguiça ou incapacidade, têm sofrido uma derrota ou uma perda no âmbito daquela imparcial “luta pela existência”, da qual falou, antes de Darwin, o liberal Herbert Spencer. Seria insensato e criminoso querer obstaculizar as leis cósmicas que exigem a eliminação dos incapazes e fracassados: “todo o esforço da natureza é para se desfazer deles, limpando o mundo de sua presença e deixando espaço aos melhores”. Todos os homens estão submetidos a uma espécie de juízo divino: “Se estão realmente em condições de viver, eles vivem e é justo que vivam. Se não estão realmente em condições de viver, morrem e é justo que morram” (Spencer, 1877: 414).

Bem mais tarde, Ludwig von Mises fala da “luta pela sobrevivência”, desenvolvendo uma teodicéia da felicidade sem mancha e sem sombras: a “luta pela sobrevivência” premia “os homens superiores”. Além do mais, “nas condições do capitalismo, os mais dotados e os mais capazes não podem obter nenhuma vantagem de sua superioridade, mas colocam os seus melhores dotes ao serviço dos desejos da maioria, constituída pelos menos dotados. No âmbito do mercado o poder econômico corresponde aos consumidores” (Mises, 1988a:95). Diante de um quadro tão harmônico e claro, limitamo-nos a recordar Hegel quando este afirma que “cai na edificação e inclusive na insipidez” toda a visão da história e da sociedade na qual estiver ausente “a seriedade, a dor, a paciência e o trabalho da negatividade” (Hegel, 1979:24).

Uma versão parecida da teodiceia da felicidade encontra-se em Hayek. Porém este considera inaceitável toda a ideia de justiça fundada em “uma proporcionalidade entre recompensa e mérito moral”, pois a ideologia meritocrática lhe parece suspeita como possível fator de desajuste e distúrbio, mais do que consagração das relações sociais existentes. Para Hayek, dado que o mérito não é objetivamente mensurável e que seria arbitrário e despótico pretender retribuí-lo com base na opinião subjetiva que se tenha dos méritos próprios e alheios, não resta mais que substituir a categoria mérito pela de valor: “está bem que os indivíduos gozem de vantagens proporcionais aos benefícios que eles mesmos tiram de sua própria atividade” (Hayek, 1960:93). Mas tal ajuste de categorias não modifica substancialmente a teodiceia de felicidade, cujo lugar de realização é agora o mercado. Fica claro, em todo caso, que “uma sociedade livre poderá funcionar ou conservar-se apenas se os seus membros consideram justo que cada indivíduo ocupe o posto derivado de suas próprias ações e como tal o aceite” (Hayek, 1960:71). Se a teodiceia da felicidade, segundo a definição de Weber, está em função da produção da boa consciência por aqueles que gozam da riqueza ou do poder ou, em qualquer caso, da felicidade, na versão de Hayek alcança seu objetivo com particular elegância: não existe desajuste ou contradição entre posição econômico-social e valor objetivamente medido pelo mercado. Tanto é assim que qualquer manifestação de insatisfação frente a esta teodiceia realizada pelo mercado pode ser atribuída exclusivamente no sentimento de “inveja” e da fuga da “responsabilidade individual” (Hayek, 1960: 93, 71).

Em todo caso, na tradição liberal, apesar de variantes ideológicas às vezes relevantes, a miséria tem relação com o demérito individual, a falta de sorte e o acaso, a ordem natural e inclusive providencial das coisas, mas, de forma alguma, questiona as relações econômico-sociais e instituições políticas. Por que, segundo Tocqueville (1951a:30 e 92), a revolução de 1848, já em fevereiro, é substancialmente socialista, antiburguesa (e antiliberal)? Porque nela estão muito presentes “as teorias econômicas e políticas” que querem “fazer crer que a miséria humana é obra das leis e não da providência, e que seria possível acabar com a pobreza mudando a ordem social” (Tocqueville, 1951a: 84). Inclusive a regulamentação legislativa e a redução do horário de trabalho (a jornada de 12 horas) do liberal francês são colocadas na conta das “doutrinas socialistas” e, portanto, condenadas sem apelo (Tocqueville, 1951d:38). Contra a pretensão de colocar “a previdência e sabedoria do Estado no lugar da previdência e sabedoria individual”, Tocqueville reitera que “não existe nada que autorize o Estado a se intrometer na indústria”. É o célebre discurso de 12 de setembro de 1848 (Tocqueville, 1951d: 551), pronunciado para que a Assembleia Constituinte rejeitasse aquela reivindicação do “direito ao trabalho” que já fora repelida nos dias sanguinários de junho e que, porém, por vias tortuosas, abriu caminho, por exemplo, na Constituição da República Italiana.

É verdade que não se verificou no Ocidente a socialização radical dos meios de produção, prevista e desejada por Marx. Ao contrário, um processo de reprivatização está em curso na Europa Oriental, enquanto dúvidas e reflexões profundas se manifestam sobre os mesmos países que, de uma forma ou de outra, ainda continuam evocando o “socialismo”. Resta o fato de que a relação entre economia e política, e mesmo a própria concepção da liberdade, resulta profundamente modificada, também no Ocidente, pela lição de Marx.

Trabalhadores assalariados, instrumentos de trabalho e “máquinas bípedes”

Hayek tem razão ao denunciar a contaminação socialista e marxista ocorrida na sociedade ocidental. Aliás, tem mais razão do que ele pensa. O seu erro, de fato, é proceder a uma reconstrução decisivamente oleográfica da tradição liberal. Nenhuma prova é apresentada para a tese de que “a luta contra todas as discriminações baseadas na origem social, na nacionalidade, na raça, na crença, no sexo, etc. permaneceu uma das características mais destacadas pela tradição liberal” (Hayek, 1987:142). Na realidade, para me limitar a um exemplo macroscópico, em um país clássico da tradição liberal, os Estados Unidos, a instituição da escravidão continuou a subsistir até 1865 e a sua abolição formal, a partir de então, não significou de fato o desaparecimento imediato de qualquer discriminação e dano aos negros, os quais por muito tempo se viram excluídos, devido à cor da pele, dos direitos políticos e, às vezes, civis[4].

Mas Hayek (1987:145) insiste na sua hagiografia: “o liberalismo clássico tinha apoiado as reivindicações de ‘liberdade de associação’” Na realidade, a polêmica anti-sindical, ora mais explícita e virulenta, ora em surdina e pouco perceptível, acompanha constantemente a história do pensamento liberal. Por outro lado, para desmentir o patriarca do neoliberalismo, basta citar seus autores prediletos. Mandeville, por exemplo, escreveu surpreso e indignado sobre as primeiras tentativas dos miseráveis do seu tempo de se organizarem de modo a melhorar as condições de vida:

estou informado por pessoas dignas de fé que alguns destes servos chegaram a tal ponto de insolência de se reunir em associação e fizeram leis que estabelecem como obrigação não prestar serviço por uma quantia inferior à estabelecida por eles, não carregar pacotes ou cargas que superem um certo peso, fixado em duas ou três libras, e se impuseram uma série de outras regras diretamente opostas ao interesse daqueles para quem prestam serviço, e ao mesmo tempo, contrárias ao objetivo pelo qual foram contratados (Mandeville, 1988:305).

Por sua vez, Burke vê a liberdade de contrato ameaçada, ou anulada, por qualquer acordo ou ligação associativa entre os operários, de qualquer “combination or collusion” (Burke, 1826:380). Na França, a lei Le Chapelier, que proibia as associações operárias, foi extinta apenas em 1887. Por trás disso, estão as gigantescas lutas do movimento operário e socialista que culmunaram na Comuna de Paris: estamos, então, além de 1870, a data que marca segundo (Hayek, 1987:134), o início do “declínio da doutrina liberal”, um declínio que coincide com a irrupção no cenário político de um movimento operário e socialista organizado. No que se refere ao desaparecimento da discriminação censitária dos direitos políticos, até o momento considerada legítima por Hayek, esta é ainda mais recente e nos remete aos acontecimentos relacionados com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução de Outubro (Losurdo, 1993a: cap. I, 13 e cap. VII, 5).

A democracia moderna não pode ser compreendida sem as ideias e as lutas da tradição democrático-socialista, sendo que a última tem um mérito ainda maior: aquele de ter contribuído de forma decisiva para a elaboração do conceito universal de homem, inexistente, até aquele momento, para a tradição liberal. Locke fala, como se fosse de um fato óbvio, acerca dos “plantadores das Índias Ocidentais” que possuem escravos e cavalos com base nos direitos adquiridos nas regras de compra e venda (Losurdo: 1992: 3). Ainda em pleno 1800, Stuart Mill (1972:197) situa as que ele define como raças “menores” apenas acima das espécies animais superiores).

Não apenas às populações coloniais foi negada a plenitude da dignidade humana. Se Locke reduz o escravo negro à condição de “mercadoria” ou o iguala ao cavalo, um século mais tarde, Edmund Burke — o “grande whig” inglês, querido tanto por Dahrendorf (1990:27) como por Hayek (1960:22) que o define como “grande e profeta” — reduz o trabalhador braçal ou trabalhador assalariado à categoria de instrumentum vocal e, portanto, retomando uma divisão clássica, o coloca entre os instrumentos de trabalho, junto ao boi (instrumentum semivocale) e ao arado (instrumentum mutum) (Burke, 1826:383). Até o autor do provavelmente mais célebre manifesto da Revolução Francesa, Sieyès, fala da “maior parte dos homens como máquinas de trabalho”, ou seja, “instrumentos humanos da produção” ou “instrumentos bípedes”. Chega-se, inclusive, a uma negação suficientemente explícita da qualificação de homem:

os desgraçados que fazem os trabalhos pesados, produtores dos gozos alheios, que recebem apenas para a subsistência de seus corpos sofridos e necessitados de tudo, esta multidão imensa de instrumentos bípedes sem liberdade, sem moral, sem faculdade intelectual, dotados apenas de mãos que recebem pouco e de uma mente gravada por mil preocupações que os fazem apenas sofrer [...] são estes que vocês chamam homens? São considerados civilizados (policés), mas alguém já viu, pelo menos um desses, que fosse capaz de entrar na sociedade? (Sieyès, 1985: 236,75,81)

Este nominalismo antropológico (a negação do conceito universal de homem) constitui o fundamento teórico da negação dos direitos políticos aos não-proprietários: (Constant, 1957:1146) os compara a “garotos” que, obrigados a trabalhar dia e noite, permanecem em uma situação de “eterna dependência”.De alguma forma são homens, mas com uma característica singular devido à qual não se tornam, e nunca poderão se tornar, adultos. Constant não se afasta muito de Sieyès. Mesmo este último, quando não fala de “instrumentos humanos”, ou melhor, “bípedes”, fala da “multidão sempre infantil”(Sieyès, 1985:80). Nos dias atuais, esta visão continua de alguma forma presente em um autor como Hayek, quando explicita que uma sociedade liberal poderia muito bem se negar a conceder o sufrágio às massas. O direito de voto é negado, também, às “pessoas muito jovens”! (Hayek, 1960:13)

Marx crítico do holismo liberal

A insistência de Marx no “homem” como “ente genérico” só pode ser compreendida no contexto da luta pela construção do conceito universal de homem. Já em Hegel pode-se encontrar a afirmação de que, não apenas a um escravo, tratado pelo senhor como um instrumento de trabalho, mas também ao pobre, reduzido pela fome a condições de substancial escravidão, é em última análise negada a qualidade de homem (Losurdo, 1992). Por esta sua insistência sobre o homem como “ente genérico”, Marx foi várias vezes acusado de holismo. Não é o caso, aqui, de nos determos na ambiguidade e inadequação desta categoria. Mas vale a pena notar que, sob muitos aspectos, O capital se apresenta como a denúncia do holismo que atravessa a economia política e a tradição liberal. Vejamos algumas das proposições criticadas por Marx.

Mandeville escreve: “para tornar a sociedade feliz é necessário que a grande maioria permaneça ignorante e pobre”. Ou então: “a riqueza mais segura consiste em uma massa de pobres trabalhadores” (apud Marx, 1955b:647). Não é tão importante que o autor mais querido de Hayek (1987:249-266) considere como um fato natural, inevitável e ao mesmo tempo benéfico a miséria e a ignorância dos trabalhadores assalariados. O que mais importa é examinar a estrutura epistemológica do discurso de Mandeville. Ao exigir o sacrifício de uma numerosa massa de indivíduos, é a “sociedade”, ou melhor, a “riqueza”, um monstro universal que engole a grande maioria da população. Ou então, se nos lembrarmos de Destutt de Tracy, ele também na mira de Marx: “as nações pobres são aquelas em que o povo vive em condições de riqueza, enquanto as nações ricas são aquelas em que, este é ordinariamente pobre”(Marx, 1955b:677). A “riqueza das nações” — para usar uma expressão de Adam Smith — é o novo nome deste Moloch devorador. Este último pode inclusive se chamar “liberdade”: a carga antiestatal e liberal de Mandeville é fortemente destacada e celebrada por Hayek, o qual, porém, transita com desenvoltura na outra face da moeda, “the working slaving people”, “a parte mais mesquinha e pobre da nação”, que, segundo Mandeville, trabalha e é justo e inevitável que trabalhe, precisamente à maneira dos escravos. E como antes a “riqueza das nações” exigia a miséria da maioria da população, agora, aquela que podemos chamar a “liberdade das nações” exige sempre a substancial escravidão da maioria da população.

É preciso analisar um pouco mais a estrutura do discurso criticado por O capital: a felicidade, ou melhor, a riqueza, ou melhor, a liberdade da “sociedade” ou da “nação” exigem a infelicidade, a miséria, a escravidão da maioria de seus membros. Por que esta proposição não é vista como logicamente contraditória? É claro: porque os trabalhadores assalariados não são contratados propriamente, ou a título pleno, sob a categoria de “sociedade” e “nação”, um universal que a eles faz apelo só porque funcionam como vítimas de sacrifício.

A necessidade de fazer uma drástica limitação dos direitos civis de grupos sociais ou étnicos considerados perigosos e subversivos é, várias vezes, explicitamente, teorizada. Nestes termos Lord Palmerston, exemplo da Inglaterra liberal, rejeita a concessão da liberdade religiosa aos católicos irlandeses: “A legislação de um país tem o direito de condenar uma parte da comunidade à falta de direitos políticos considerada necessária à segurança e ao bem estar do interior. Isto faz parte dos princípios fundamentais em que repousa um governo civil”. Aqui emerge a palavra de ordem chave do holismo (segurança e bem-estar do interior) e esta aparece no primeiro plano do liberalismo. Não em Marx, que, ao contrário, no primeiro de seus polêmicos artigos contra Lord Palmerston, denuncia como este último subordina a “massa do povo” a este universal ilusório e mistificador que é a “legislação” ou, “em outras palavras, a classe dominante” (Marx, 1955c:361).

Podemos notar que, muitas vezes, o liberalismo não priva a “multidão sempre infantil” apenas dos direitos políticos: também a exclui dos direitos civis. Hayek (1987:251) gosta de destacar Mandeville, para quem “o exercício arbitrário do poder por parte do governo seria reduzido ao mínimo”. Na realidade, Mandeville, embora defensor de uma moral laica, exige que a frequência dominical à Igreja e a doutrina religiosa se tornem uma “obrigação para os pobres e os não letrados”. Este, aos domingos, deveriam ser impedidos do “acesso a qualquer tipo de divertimento fora da igreja” (Mandeville, 1988:308).

Ainda no século XIX os liberais alemães Rotteck e Welcker — que Hayek (1978:28) cita favoravelmente —, com a finalidade de prevenir, “já na sua fonte”, cada ataque ao direito de propriedade, exigiam que os mendigos, as pessoas sem meios de sustento, fossem presas, ainda que com uma simples “medida autônoma da autoridade da polícia”, em “casas de trabalho forçado”. E presos por tempo indeterminado para serem submetidos a uma disciplina dura, ou melhor, sem piedade (Losurdo, 1983:144-148).

Fala-se da contribuição decisiva do movimento democrático e socialista na construção do conceito universal de homem (ou de pessoa ou de indivíduo).

Nietzsche enxerga longe quando descarrega a “igualdade da pessoa” na conta do “socialismo”. “A igualdade da pessoa” por ele contestada é a afirmação de que cada membro do gênero humano deve ser reconhecido como pessoa. E ao contrário — em polêmica enfurecida nas notas contra o socialismo — Nietzsche afirma que os que estão em maior número não constituem “uma pessoa” e “os indivíduos são poucos”. E, assim como Burke, com o olhar voltado para a agricultura, definia o trabalhador assalariado como instrumentum mutum, Nietzsche, com o olhar voltado para a indústria, o define “instrumento de transmissão”, com o objetivo de transmitir o movimento aos teares e aos meios de produção verdadeiros. E, assim como Sieyès tinha falado dos trabalhadores assalariados como “máquinas de trabalho”, Nietzsche fala de “máquinas inteligentes”. E, como Mandeville, considerava oportuno que fosse negado o conhecimento à “parte mais mesquinha e pobre da nação”, de forma a não provocar obstáculos ao processo de reprodução do “the working slaving people”, Nietzsche acredita que o conhecimento popular é absolutamente incompatível com aquela escravidão substancial que é o trabalho assalariado e que constitui o pressuposto de qualquer civilização (Cazzaniga, Sichirollo, Losurdo, 1988:115-140).

Os escritos de Nietzsche foram elaborados no período em que Hayek situa “o declínio da doutrina liberal” seguido pelo desenvolvimento do movimento democrático-socialista. Em polêmica contra este movimento, e na tentativa desesperada de deter a construção do conceito universal de homem, Nietzsche acaba, objetivamente, retomando temas típicos do liberalismo, ou pelo menos, do primeiro liberalismo.

As “crianças”, os “bárbaros” e a tradição liberal

O grande sociólogo e trabalhista inglês Tawney (1927:269) afirma que, na Inglaterra, de meados do século XVII aos do século XVIII, o comportamento dominante em relação ao “novo proletariado industrial” foi tão duro “que não encontra comparação nos nossos tempos, a não ser no comportamento dos mais vis colonizadores brancos em relação aos trabalhadores negros”. Na realidade, como procurei demonstrar, tal comportamento vai além da Inglaterra e do limite temporal aqui indicado. Vimos antes Sieyès e depois Constant, falar dos trabalhadores assalariados como eternos garotos. Mais tarde se assiste a um interessante deslocamento desta metáfora. No contexto de um discurso ligado ao futuro, Stuart Mill é da opinião que os próprios trabalhadores assalariados devem gozar dos direitos políticos, embora a discriminação censitária, despejada pela porta da frente, corra o risco de voltar pela brecha da proposta de que as pessoas dotadas de melhor inteligência deveriam ter um voto de maior peso (o voto plural), de forma a exercerem uma influência maior (Mill, 1972:285-8). Parece que os trabalhadores assalariados não constituem mais a imagem de eternas crianças, mas tal figura desaparece da Europa apenas quando reaparece nas colônias, nas “sociedades atrasadas em que a própria raça pode ser considerada menor”. Como se comportar nestes casos? Deixemos a palavra a Mill:

As dificuldades que inicialmente se opõem ao progresso espontâneo são tão grandes que raramente se pode escolher entre vários meios para superá-las e um governante animado por intenções progressistas pode usar qualquer meio que permita conseguir uma finalidade em outros casos impossível. O despotismo é uma forma legítima de governo quando se lida com bárbaros, desde que o objetivo seja o progresso deles e os meios se justifiquem pela eficiência, no presente, para se atingir esse resultado. O princípio da liberdade não se aplica a nenhuma situação anterior ao momento em que os homens se tornaram capazes de melhorar através da discussão livre e entre iguais. Até então, somente lhes cabe a obediência absoluta a um Agbar ou a um Carlo Magno, se tiverem sorte para encontrá-lo.

É claro, a liberdade “vale apenas para seres humanos na plenitude das suas faculdades” (Mill,1926:06). Antes, a figura das crianças incapazes de entender e querer constituía a maioria da população da Europa. Agora, deslocada para as colônias, esta figura continua sempre a compor a maioria da humanidade. É verdade que não mais se trata de uma condição para ser considerada eterna. Porém, não apenas o alcance da maioria é colocado em um futuro remoto, mas, sobretudo, a aceitação da maturidade adquirida compete, por definição, e exclusivamente, àqueles que já são agora, ou se autoproclamam, capazes de compreender e de querer. Sobre esta proclamação, sobre o fato de que os países e os povos tratados a ferro e fogo pelo Ocidente representem não apenas a menoridade, mas também a barbárie, (Mill:1926:56) não tem dúvida e justifica indiretamente até a infame guerra do ópio. E a justifica em nome dos princípios liberais: “a proibição de importar ópio da China” viola a “liberdade [...] de quem o adquire”, assim como “do produtor ou do vendedor” Estamos nos anos da segunda guerra do ópio. No começo da primeira, (Tocqueville, 1951e:58) se expressa inclusive em termos líricos:

Eis então a mobilidade da Europa diante da imobilidade chinesa! É um grande acontecimento, sobretudo se pensarmos que esta é a continuação, a última etapa de uma multidão de acontecimentos da mesma natureza que empurram gradualmente a raça europeia para fora dos seus limites e submetendo sucessivamente ao seu império ou a sua influência todas as outras raças (...); é a servidão das quatro partes do mundo por obra da quinta parte. Portanto, é melhor não ser tão maldizentes em relação ao nosso século e a nós mesmos. Os homens são pequenos, mas os acontecimentos são grandes.

Tocqueville, observador atento e lúcido, percebe a realidade do colonialismo. Na Argélia “tornamos a sociedade muçulmana muito mais miserável, mais desordenada, mais ignorante e mais bárbara de quanto fosse antes de nos conhecer” (Tocqueville, 1951e:323).

Percebe que o colonialismo europeu caminha até as portas do genocídio. Existe o perigo de que se repita “a história da conquista da América” (Tocqueville, 1951e:329). Sim, “além de cruel, é absurdo e impraticável querer sufocar ou exterminar os índios”, mas, na Argélia, “dizimamos a população”, que continua a ser reduzida pela fome provocada pela guerra de conquista (“neste momento Abdel-Kader morre literalmente de fome”) e, todavia, para os oficiais e soldados do exército francês, “a morte de qualquer um desses (os árabes) parece um bem” (Tocqueville, 1951e:224- 5). Apesar deste tom realista, Tocqueville considera impensável e fora de questão a retirada da França e da Europa das colônias.

Até o fim, para o liberal francês, a Europa continuou sinônimo de cultura e as populações coloniais, de barbárie. Em 1875, quando, para o colonialismo inglês, parecia que a Índia estava se rebelando, inclusive as tropas armadas e treinadas pela Inglaterra, Tocqueville, ao escrever para o amigo inglês Reeve, com o qual 17 anos antes celebrara o começo da guerra do ópio, recorre desta vez a tons angustiantes. A queda da Índia na “barbárie” “seria desastrosa para o amanhã das civilizações e para o progresso da humanidade”. Podia-se, porém, ter esperança em uma repressão eficaz: “nos nossos dias não existe quase nada de impossível para a nação inglesa, desde que esta comprometa todas as suas reservas e toda a sua vontade”(Tocqueville, 1951j:230).

Seria fácil neste ponto contrapor, para Mill e Tocqueville, o cenário da dominação inglesa na China e na Índia que emerge de algumas páginas de Marx, mesmo que este também não consiga se livrar totalmente da leitura com chave civilizatória do expansionismo colonial, característica da cultural liberal daquela época (Losurdo,1993). Não é este o ponto essencial. Tem mais significado a ironia sobre a “guerra civilizatória” das potências coloniais. Na guerra do ópio, enquanto “o semibárbaro” (a China) “tinha fé nos princípios da lei moral, o civilizado lhe opunha o princípio do Eu” (Marx, 1968:323, 361/Marx, Engels, 1976:204,230), ou seja, da liberdade de comércio e da cultura liberal, o princípio assim eloquentemente defendido por Mill. Mas onde está a cultura e onde está a barbárie? A Europa, por enquanto, pode conservar a sua certeza de representar a cultura, enquanto ainda domina o conceito universal de homem. Por isso estremece de indignação pela crueldade e os “horrores” — como (Tocqueville, 1951f: 254) os definia — dos insurgentes na Índia e na China, mas continua a conservar a sua boa consciência apesar de todos os crimes que comete nas colônias. Citando Marx: “A crueldade, como todas as coisas nesta terra, tem as suas modalidades que variam segundo o tempo e o lugar. César, o refinado homem de cultura, narra ter dado ordem de cortar a mão direita de alguns milhares de guerreiros gauleses” (Marx,1955:288). Mas, naquele tempo, a Gália era sinônimo de barbárie, enquanto nos tempos de Mill e de Tocqueville, a França era sinônimo de civilização. E Tocqueville (1951g:357) percebe como na América liberal e democrática os brancos se negam a reconhecer aos negros “os tratados gerais da humanidade”, assim como se negam substancialmente a reconhecê-los nos índios. Observa como, aos olhos dos oficiais franceses na Argélia, “os árabes são como animais malignos” (Tocqueville, 1951g:224). Todavia, previne a França contra a possibilidade de surgir nos árabes a ilusão ou a pretensão de que possam ser tratados “como se fossem nossos cidadãos e nossos iguais”. A ideia de igualdade do homem não pode se estender até abraçar os “povos semi-civilizados”. E, reconhecendo o quanto de bárbaro existe no comportamento da França na Argélia, é sempre Tocqueville que adverte, por outro lado, a própria França para que não abandone à compreensão e à indulgência, virtudes incompreensíveis aos “povos semi-civilizados”, capazes apenas de compreender o discurso da “justiça exata, mas rigorosa”. De qualquer forma, nem por um segundo os árabes devem ter a ilusão que a França (e a Europa) possa abandonar “a sua posição dominadora”. Isto significaria provocar “estupor e confusão nos seus espíritos, enchê-los de noções errôneas e perigosas” (Tocqueville, 1951h:324).

Vimos Stuart Mill falar, indiferentemente, de “bárbaros” ou de “raças” a serem consideradas “inferiores”. Também na diversidade das suas configurações e deslocamentos geográficos, a figura da multidão-criança acompanha constantemente, como uma sombra, o pensamento liberal e define o limite de fundo: existem homens (que talvez de humano tenham apenas a fisionomia) para quem a liberdade resulta ser um brinquedo, ao mesmo tempo supérfluo e perigoso. Citando Sieyés (1985:80): “Entreguem um brinquedo a uma criança e ele o quebra para ver como é feito (...). A lógica social também é um brinquedo para a multidão sempre criança”.

Mas como os bárbaros ou “semicivilizados” são crianças, as crianças que vivem na metrópole se transformam facilmente em bárbaros ou demônios. Já com referência ao processo de radicalização da Revolução Francesa e ao irromper das massas populares no cenário político, Mallet du Pan lança o grito de alarme: “Os unos [...] estão no meio de nós”. Quatro décadas mais tarde, após a revolta operária de Lyon, Saint-Marc Girardin denuncia a “nova invasão dos bárbaros” (Hunecke, 1978:164). Depois da revolta operária de junho de 1848, o próprio (Tocqueville, 1951a:93), descrevendo as emoções coletivas do tempo, também acaba evocando o espectro “dos vândalos e dos godos”.

A sociedade burguesa-liberal tende a ler em termos naturais e de raça os próprios conflitos de classe. É por isso que, quando se rebelam, os trabalhadores das metrópoles são denunciados como bárbaros, como aqueles que ameaçam com a barbárie no interior do mundo civilizado que já tem que se proteger dos bárbaros externos. São assim explicadas as propostas recorrentes de esterilização da raça dos vagabundos, ociosos e criminosos, dos bárbaros incapazes de se erguerem no nível da civilização. Eis uma ideia que tem um papel importante na cultura americana dos séculos XIX e XX (Fink, 1962), mas que ainda está presente em Winston Churchill (Ponting, 1992).

Neoliberalismo e Nova Direita

Se hoje, quando se fala de direitos do homem, se entende, ao menos por parte da cultura política mais avançada, o homem na sua universalidade, o homem como tal, não se pode ignorar a grande contribuição, para este resultado, da tradição política que vai de Robespierre (foi o primeiro que contestou as limitações censitárias do direito de voto e aboliu a escravidão nas colônias) a Lênin (a revolução de Outubro deu um impulso decisivo ao processo de descolonizar e reconhecer o direito de autodeterminação também aos povos em certo tempo considerados bárbaros). É claro que a constatação deste fato histórico não deve ser um obstáculo para um balanço crítico, sem indulgências, desta tradição revolucionária. No que se refere mais especificamente ao marxismo, a ilusão que o penetra profundamente, quanto à breve fase de transição para um comunismo utopicamente transfigurado, produziu consequências claramente nefastas: esta ilusão levou a negligenciar, ou pior, a considerar puramente “formal”, o problema das garantias democráticas, ou o velho problema liberal dos limites de poder, qualquer que seja.

Seria, porém, errado pensar que este tema seja totalmente ausente em Marx e Engels. Existe inclusive uma celebração apaixonada da tradição liberal anglo-saxônica: “o direito inglês” — escreve Engels em 1892 — é “o único que manteve conservado intacto e transmitido para a América e para as colônias a melhor parte daquela liberdade pessoal, daquela autonomia local e daquela independência frente a toda intervenção estrangeira, com exceção da justiça”. Tudo isso que, com a monarquia absoluta, se perdeu na Europa continental e nunca mais foi reconquistado completamente (Engels, 1955:304).

Não é o tema da liberdade do indivíduo que faz a diferença entre Marx e Engels, por um lado, e, por outro, a tradição liberal. É, ao contrário, o reconhecimento da dignidade de indivíduo e de homem em cada ser humano, e também o conhecimento de que sem a “liberdade da necessidade” correm o risco de resultarem formais a liberdade civil e política e o próprio reconhecimento da dignidade do homem. É certo que profundas transformações políticas e sociais se desenvolveram de modos muito diferentes dos previstos e desejados por Marx e Engels. Todavia, Hayek tem razão quando reconhece em Roosevelt e nos documentos da ONU, na atual configuração da sociedade “liberal-democrática”, influência do movimento democrático-socialista e do marxismo. É importante traçar um balanço histórico correto do mundo no qual vivemos para compreender os termos reais do atual debate político. O que se assiste hoje é a uma gigantesca tentativa de purificar a sociedade “liberal-democrática” dos elementos (ou do maior número possível de elementos) de democracia, daquilo que inseriram as lutas prolongadas do movimento democrático-socialista. Daherendorf identifica corretamente no neoconservadorismo a tentativa de reverter a “ideia de direitos civis e sociais”, de privar a idéia de direito daquela “substância social” que é o resultado da “resposta que a sociedade aberta apresenta aos desafios da luta de classes” (Dahrendorf, 1987:152-140).

E então, apesar de todas as diferenças, o neoconservadorismo e o neoliberalismo acabam, inevitavelmente, se encontrando com a velha e a Nova Direita na liquidação, não apenas do movimento socialista, mas da herança da Revolução Francesa e da ideia de igualdade, do “Estado- Providência” (Benoist, 1987:81-84), etc. Por vezes a Nova Direita reivindica explicitamente a tradição liberal para contrapô-la à massificação do mundo moderno. Tocqueville foi “um dos primeiros a descobrir a contradição escondida no slogan que, a partir de 1789, associa igualdade e liberdade” (Benoist, 1978:259).

Assim, o antiigualitarismo dos neoconservadores não parece suficientemente radical e consequente para a Nova Direita (Faye, 1986:61- 71). E, todavia, existe um tema de fundo que aproxima as duas correntes. Benoist não se cansa de denunciar no conceito universal de homem a versão superficialmente laicizada do monoteísmo hebraico-cristão, a gênese do “totalitarismo igualitário” (Benoist, 1979:31-159-167). Com referência à Declaração universal dos direitos do homem, Hayek ironiza por sua vez “o conceito de ‘direito universal’ que assegura ao camponês, ao esquimó e talvez também ao abominável homem das neves ‘férias periódicas remuneradas’” (Hayek, 1976:104).

A destruição da herança do movimento democrático-socialista não pode deixar de colidir com o conceito de homem e de direito do homem como tal e é apenas neste quadro que se pode compreender a tese desenvolvida por Hayek em relação ao problema da fome do Terceiro Mundo: “Contra a superpopulação existe apenas um freio, ou seja, que se mantenham e que cresçam apenas aqueles povos que são capazes de se alimentarem sozinhos”[5]. É natural que o regresso à concepção liberal clássica, vista e cuidada na sua “pureza” e “autenticidade”, comporte, também em nível internacional, a rejeição de qualquer redistribuição de recursos que não derive da caridade individual. Mesmo quando alcança dimensões trágicas, até levar à morte de milhões de pessoas, a fome continua a ser um fato privado, daqueles que a sofrem ou dos eventuais benfeitores que fazem caridades. Desta forma, os povos aprenderão a “se alimentar sozinhos”.

É certo que milhões de crianças não terão sequer o tempo de aprender. Mas a resposta para eventual objeção já está contida num clássico da tradição liberal. Segundo Malthus é intrínseco ao “governo moral deste universo que os pecados dos pais sejam punidos nos seus filhos”; “pelas leis da natureza, uma criança é confiada direta e exclusivamente aos cuidados de seus pais” e não tem nenhum direito de reivindicar à sociedade (Malthus, 1965:497).

É desta desconfiança em relação à categoria dos direitos universais do homem e desta indiferença para com a sorte de milhões de indivíduos concretos que emerge mais uma vez o caráter ideológico e mistificador da profissão de fé que o liberalismo clássico e o neoliberalismo fazem do “individualismo”.

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Notas
[1] “O professor Larry Brown, da Harward Public School of Public Health, presidente da task force dos médicos sobre o problema da fome, denunciou que 18 a 21 milhões de americanos não comem o suficiente. Destes, 7 milhões são crianças” (Ginzberg, 1988).
[2] É o próprio Hayek (1973: 148) que estabelece uma equivalência entre as duas expressões.
[3] É preciso ver se alusões a esta “teodiceia da felicidade” não estão presentes no próprio Max Weber, pois afirma que, no âmbito do capitalismo, quem perde “na luta econômica pela vida” e quem é “jogado na rua como desempregado” é “o operário que não pode e não quer se adaptar” ao mercado e às “normas” da economia (Weber, 1972: 19 e 37). Aqui falta qualquer referência a objetividade da crise.: Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus (1972).
[4] A legislação de alguns Estados do Sul continuou a proibir os casamentos inter-raciais até quase os dias de hoje!(Keryan, 1991:78-80).
[5] Declaração a «Wirtschaftswoche» de l 6 de março de 1981. 
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Resumo: Exame da formulação universalista dos direitos do homem, de extração hegeliano-marxista, contrapondo-a à concepção liberal, bem mais limitada. Argumenta que, da mesma forma que o movimento socialista foi decisivo para que se ampliasse a concepção e a prática liberais, o enfraquecimento dessa influência pode resultar em uma nova “contração” dos direitos do homem, que deixarão de se referir à grande massa dos não proprietários e mesmo a povos inteiros do chamado terceiro mundo. 
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LOSURDO, D. “Marx, a tradição liberal e a construção histórica do conceito universal de homem”. Trad. Egle Bartoli. In: Lutas Sociais, n. 13/14, p. 23-42, 2005.
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

ARTE REALISTA| Funcionário do Ano



Sinopse: Atenção à meta do mês: vender 200 cópias do audiolivro A arte da guerra lido pelo Sérgio Mallandro. (Porta dos Fundos)
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Funcionário do ano (farsa, BRA, 2022), de Rodrigo Van Der Put.
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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

ARTE REALISTA| Fusão a frio


Fusão a frio
Humberto Gessinger/Paulinho Galvão

Ninguém sabe como serão os filhos desse casamento
Indústria da informação
Indústria do entretenimento

Promessas de fusão a frio, desvio de comportamento
Indústria da informação
Indústria do entretenimento

Ninguém sabe como serão os filhos desse casamento
Indústria da informação
Indústria do entretenimento

Promessas de fusão a frio, diversão e conhecimento
A única escolha que temos é a forma de pagamento

Em doses homeopáticas, em escala industrial
Tudo acaba em samba, é sempre carnaval
Tudo acaba em sombras, é sempre vendaval
Em doses homeopáticas, em escala industrial
Tudo acaba em samba, é sempre carnaval

Tudo acaba em samba, é sempre carnaval
Tudo acaba em sombras, é sempre vendaval
Em doses homeopáticas, em escala industrial

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Dançando no campo minado (BRA, 2003) - Engenheiros do Hawaii.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

ARTE REALISTA| Admirável chip novo

Admirável chip novo
Pitty

Pane no sistema
Alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluido em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado

Mas lá vem eles novamente
Eu sei o que vão fazer
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva
Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga

Não, senhor
Sim, senhor
Não, senhor
Sim, senhor

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Admirável chip novo (2003) - Pitty.
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quinta-feira, 15 de abril de 2021

ARTE REALISTA| Demissão Gameficada



Sinopse: Não teremos sinopse porque demitimos nosso estagiário. (Porta dos Fundos)
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Demissão gameficada (farsa, BRA, 2021), de Bianca Frossard.
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

As empresas te matariam, literalmente, para obter mais lucro

 
por Nicole M. Aschoff

A roupa suja da Boeing foi ao ar este mês quando a empresa divulgou mais de cem páginas de e-mails e mensagens trocadas por funcionários da empresa a investigadores do Congresso. As revelações ofereceram um retrato sombrio da cultura corporativa dentro da Boeing – funcionários de alto escalão insultando os funcionários, discutindo maneiras de enganar as agências reguladoras da aviação, lamentando sua própria torpe moral.

A comunidade jurídica ficou chocada com os documentos, chamando-os de “surpreendentes e apavorantes” e “incrivelmente condenáveis”. O presidente do Comitê de Transportes e Infraestrutura da Câmara, Peter DeFazio, disse que os e-mails “mostram uma imagem profundamente perturbadora dos comprimentos que a Boeing aparentemente estava disposta a fazer para evitar o escrutínio dos reguladores, das tripulações de voo e do público”.

Em uma matéria para o Financial Times, Bjorn Fehrm, analista da consultoria de aviação Leeham, culpa o aparente “problema cultural” da Boeing em sua fusão há duas décadas com o escritório de defesa McDonnell Douglas, cujo CEO Harry Stonecipher priorizou os resultados da empresa acima de tudo. Cynthia Cole, ex-engenheira da Boeing, concorda. Em uma entrevista em outubro de 2019 à NPR, Cole diz que, após a compra em 1997, a segurança e a qualidade começaram a “ocupar um segundo lugar no cronograma e no custo”.

É um tanto intrigante que ainda haja quem se surpreenda ao saber que as empresas e seus executivos, deixados por conta própria, se envolvem em comportamentos inescrupulosos e, às vezes, mortais. A Coca Cola matou sindicalistas na América Latina. A General Motors construiu veículos conhecidos por pegar fogo em colisões. As empresas de tabaco ocultaram as propriedades causadoras de câncer de seus produtos por décadas. O catálogo dos crimes éticos e morais das empresas é impressionante.

Essas falhas éticas e morais da Boeing, Coca Cola, General Motors e muitas outras empresas são a norma, não a exceção.

É claro que pode ser que, no caso da Boeing, uma nova obsessão por lucros crescentes tenha interrompido as normas corporativas mais antigas, transformando a cultura da Boeing de tal forma que colocaria em risco a vida das pessoas se isso significasse um retorno trimestral. Certamente, é fácil encontrar exemplos de empresas cuja cultura corporativa mudou para pior depois que o conselho colocou um clone de Jack Welch no comando, ou uma empresa de “private equity” procurando ganhos extraordinários comprando até os donos originários da empresa.

Mas devemos ter cuidado ao ler a história da “Boeing que deu errado”. Seu apelo baseia-se em uma poderosa ficção: que o objetivo das empresas, impedindo a infecção de uma força maligna, é operar de acordo com os padrões morais das comunidades em que elas estão inseridas.

Essa suposição, como a elevação do lucro acima de tudo – uma característica definidora do capitalismo -, cria um desalinhamento permanente entre as motivações e os objetivos das empresas e os de seus acionistas.

Além disso, vemos evidências desse desalinhamento ao nosso redor. O desejo de acesso à internet de alta velocidade esbarra na relutância dos provedores de telecomunicações em investir em bairros de baixa renda ou áreas rurais. As empresas de energia suja trabalham com tenacidade para impedir que as comunidades desenvolvam alternativas viáveis de energia solar e eólica. As empresas farmacêuticas aumentam o preço dos medicamentos que podem salvar vidas.

Esse desalinhamento não apenas gera uma barreira entre as empresas e seus clientes. Também azeda a relação entre chefes e trabalhadores, e entre os próprios trabalhadores.

O caso da Boeing é um exemplo extremo de um fenômeno mais amplo. Todos os dias somos solicitados de forma implícita e explícita a ficarmos calados diante de improbidade contábil, violações de saúde e segurança, assédio e abuso de colegas de trabalho e roubo de salário. Os efeitos são corrosivos, destruindo a confiança e a solidariedade, e fortalecendo o poder que as empresas têm para buscar mais lucros com impunidade.

Diante de um declínio acentuado no poder do trabalho organizado e do desembaraço e desequilíbrio das agências reguladoras federais, as opções para os trabalhadores destacarem os abusos corporativos – sem arriscar seu emprego ou reputação – são extremamente limitadas. Na escolha entre saída e voz, a maioria das pessoas tenta encontrar um emprego diferente ou exteriorizam suas preocupações agarrando-se aos colegas de trabalho em vez de confrontar o chefe. Isso deixa práticas e pessoas podres no lugar, perpetuando abusos e más práticas.

No capitalismo, a divergência fundamental entre os valores das empresas e os valores das pessoas comuns é constantemente encoberta. Mas, às vezes, como no caso da Boeing e das centenas de vidas perdidas no último ano e meio, a desconexão é impossível de ignorar.

É nesses momentos que devemos enfatizar esse desalinhamento – gritar aos berros que, apesar do poder das empresas de moldar a existência de pessoas comuns, os valores das empresas não nos definem.

Amor, honestidade, bondade, dignidade e orgulho são os valores que motivam a maioria das pessoas. Em vez de permitir que o capital molde a sociedade de acordo com seus valores, devemos criar instituições que forçam as empresas a operar de acordo com nossos valores.

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[0] Tradução: Cauê Seigner Ameni.
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segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O mercado que alimenta os EUA com sangue do México

 
por Maíra Mathias e Raquel Torres

Imagine que você é mexicano e, duas vezes por semana, atravessa a fronteira com os Estados Unidos para “doar” sangue (o que nos tempos correntes, convenhamos, é bastante estressante). Essas “doações” são pagas e, na verdade, são a sua única fonte de renda. Então, mesmo que você saiba (ou sinta) que o seu corpo não tem tempo de se recuperar, pois os sintomas da falta de um anticorpo chamado imunoglobulina G já aparecem – dores de cabeça, desmaios, dificuldade até em levantar objetos – você continua. Essa é a rotina de Genesis, uma jovem de 21 anos, e de outros milhares de mexicanos que servem, literalmente, de matéria-prima para os EUA. O país é o maior fornecedor de plasma sanguíneo em um mercado global de US$ 21 bilhões. Por lá, uma pessoa pode “doar” sangue até 104 vezes por ano, uma permissão que ultrapassa em muito a regulação da maior parte dos países.

A reportagem da ProPublica, feita em parceria com a TV alemã ARD, entra nos meandros do esquema envolvendo os imigrantes. Os dados da agência reguladora FDA mostram que dos 805 centros de doação de plasma nos EUA, 43 estão localizados ao longo da fronteira sul. E de acordo com documentos internos obtidos de uma das empresas que operam por lá, de longe, eles os mais produtivos. Em média, um centro de coleta da Grifols paga mil doadores por semana, enquanto na fronteira esse número sobe para 2,3 mil. Além disso, eles são os campeões no registro de pessoas que doam 75 vezes por ano ou mais.

Baseando-se em entrevistas com doadores de Ciudad Juárez e outros municípios da fronteira, cada doador mexicano recebe por dia US$ 9, abaixo de US$ 300 por mês. Mas isso varia: quanto mais magra, menos dinheiro a pessoa recebe por doação, numa variação que em outra empresa – a CSL – vai de 20 a 40 dólares. Se por qualquer razão a doação não se completa, a pessoa não recebe um centavo. Muita gente tem nas doações a principal ou a única fonte de renda. Dão o sangue por comida e casa.

A situação está em uma zona cinzenta legal. Os mexicanos que doam sangue têm um visto específico, que permite entrar nos EUA apenas para visitar. Mas Genesis, por exemplo, faz isso há dois anos duas vezes por semana no que poderia ser perfeitamente caracterizado como uma relação de trabalho. As empresas negam essa relação e afirmam que o pagamento é uma compensação aos doadores.

No México, o pagamento por doação foi proibido em 1987. No Brasil, isso aconteceu em 1988, com a Constituição. Antes da criação do SUS, o sangue era uma mercadoria como qualquer outra. Máfias operavam esquemas de sangue e a segurança das transfusões era precária. Quando defendeu a criação do sistema público de saúde na Constituinte, o sociólogo Betinho, ele próprio vítima de sangue contaminado, resumiu: “Esta é uma questão nacional da qual o sangue é apenas uma ponta do iceberg, mas é uma ponta importante, é uma ponta fundamental.” 
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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

ARTE REALISTA| Vida de Operário


Vida de operário
Falcão Excomungado

Fim de expediente
Cinco e meia
Cartão de ponto
Operários
Saem da fábrica cansados da exploração
Oito horas
E de pé
E de pé na fila, ônibus lotado
Duas horas em pé ou sentado

Vida de operário
Vida de operário
Vida de operário
Braços na máquina operando a situação
Crescimento da produção
E o lucro é do patrão
Semana é do patrão
Ganância é do patrão
E o lucro é do patrão

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Gol de quem? (BRA, 1995) - Pato Fu.
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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Quantos operários foram explorados para você ter seu celular?


por Vijay Prashad

Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostra que a força de trabalho global total é, atualmente, de 3,5 bilhões de trabalhadores. É a maior força de trabalho global que se tem registro na história. Falar em fim dos trabalhadores é totalmente prematuro quando nos confrontamos com o peso desses dados.

A maioria desses 3,5 bilhões de trabalhadores, afirma a OIT, experimentou a falta de bem-estar material, segurança econômica, igualdade de oportunidades ou espaço para o desenvolvimento humano. "Estar empregado nem sempre garante uma vida decente. Muitos trabalhadores se veem tendo que assumir empregos pouco atraentes que tendem à informalidade [“trabalho flexível”] e são caracterizados por baixos salários e pouco ou nenhum acesso à proteção social e aos direitos trabalhistas". Enquanto metade da força de trabalho global é composta por assalariados, 2 bilhões de trabalhadores (61%) estão no setor informal.

O relatório da OIT mostra que o número de trabalhadores pobres agora diminuiu, em grande parte graças ao enorme impacto do modelo de desenvolvimento econômico da República Popular da China. Os dados sobre pobreza são controversos, pois há dúvidas sobre a legitimidade das estatísticas do governo sobre pobreza. No entanto, os números demonstram que, embora a renda dos pobres tenha aumentado, essa melhora não foi suficiente para tirá-los da pobreza. Jason Hickel e Huzaifa Zoomkawala mostraram que houve pouco ganho para a parcela mais pobre da humanidade nas últimas décadas. “Para os 60% mais pobres da humanidade”, escreve Hickel, “uma pessoa viu, em média, sua renda anual aumentar em apenas US$ 1.200… durante 36 anos”. Não é um número digno de comemoração.

Mesmo que os dados mostrem que aqueles que compõem a força de trabalho global não conseguem encontrar “trabalho decente”, as taxas de produtividade são mais altas do que eram antes. Como observa o relatório da OIT, “o crescimento da produtividade entre 2019-2021 deve atingir seus níveis mais altos desde 2010, ultrapassando a média histórica de 2,1% no período 1992-2018”. A OIT refere-se à média global, uma vez que em muitos países – inclusive nos Estados Unidos –, o crescimento da produtividade não tem aumentado; o crescimento da produtividade em países como a China foi que elevou a média global. Mas os benefícios desse crescimento da produtividade não são compartilhados suficientemente com os trabalhadores em termos de aumentos de salário, proporcional às suas contribuições. Os benefícios aumentam para os proprietários de capital, o que apenas reforça a concentração de riqueza. O trabalho está produzindo um excedente maciço, que poderia muito bem ser usado para melhorar o bem-estar geral da humanidade. Em vez disso, vai engordar os bolsos dos capitalistas.

Nos últimos anos, nós, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, temos tentado encontrar formas de explicar algumas ideias equivocadas:

1. A força de trabalho global diminuiu. Conversas sobre automação e precarização levam à suposição de que há um declínio do trabalho a nível global. Não é o caso. Há hoje mais pessoas trabalhando do que em qualquer outra época, muitas delas em fábricas, apesar dos “desertos fabris” e do processo de desindustrialização no Ocidente.

2. A pobreza diminuiu. Se há menos pessoas trabalhando, deve haver menos gente ganhando dinheiro e, portanto, deve haver taxas mais altas de pobreza. O fato é que há mais pessoas trabalhando e, no entanto, a pobreza continua sendo um problema sério. Aqueles que estão trabalhando são de fato mais produtivos, em média, e estão produzindo mais agora do que antes. O que os mantém na pobreza apesar do aumento da produtividade – parte devido à melhor tecnologia – é que eles não podem comandar uma parcela maior dos ganhos de produtividade e do excedente total produzido. Mas o que também mantém a taxa de pobreza estável é a destruição do estado de bem-estar social e de uma série de provisões assistenciais – de moradias subsidiadas a alimentação – que foram retiradas de bilhões de pessoas.

De fato, há mais pessoas trabalhando e elas não são capazes de ganhar uma porção do excedente total produzido que seja suficiente para elevá-las acima da linha de pobreza estabelecida. Por que isso ocorre?

O arsenal da análise marxista nos fornece um conceito simples: a taxa de exploração. Marx, em O capital (1867), escreve sobre exploração em dois registros. Primeiro, no plano moral, ele condena a exploração dos trabalhadores, principalmente crianças. As terríveis condições de vida e trabalho o enfureceram, como deveria ser para qualquer pessoa sensível. Segundo, na precisa estrutura de sua ciência, Marx estuda a maneira como os proprietários de capital são capazes de contratar trabalhadores comprando sua força de trabalho. São esses trabalhadores que produzem mais-valia e cujos ganhos são expropriados pelos proprietários de capital por causa de seus direitos de propriedade. A exploração, portanto, é a extração dessa mais-valia dos trabalhadores pelos proprietários do capital. Marx escreveu que a taxa de exploração pode ser bastante esclarecedora se usarmos seu aparato conceitual básico.

A Apple acaba de lançar seu iPhone 11. Pouco o diferencia do iPhone X, embora a versão mais cara do novo telefone tenha três câmeras. É importante ressaltar que a Apple não fabrica esses telefones. Eles são fabricados em grande parte pela empresa taiwanesa Foxconn, que emprega mais de 1,3 milhão de trabalhadores somente na China. O iPhone é obscenamente caro, e a maior parte do dinheiro de sua venda não vai para os trabalhadores ou para a Foxconn, mas para a Apple. Como a Apple detém a propriedade intelectual do telefone, licencia sua produção para empresas como a Foxconn, que produzem esses aparelhos para o mercado. A Apple consome a maior parte dos lucros desse processo.

Há cinco anos, E. Ahmet Tonak fez um estudo do iPhone 6, analisando-o do ponto de vista da taxa de exploração, segundo Marx. Como parte da equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Ahmet atualizou sua análise e examinou o iPhone X. Isso nos deu a oportunidade de produzir o Caderno nº 2, que explica alguns dos principais conceitos marxistas e, em seguida, usa a análise da taxa de exploração para examinar mais especificamente o iPhone. Essa taxa nos permite demonstrar quanto o trabalhador contribui para o aumento de valor no processo de produção. Isso mostra que, mesmo que o trabalhador recebesse mais, pela mágica especial da mecanização e do gerenciamento eficiente do processo de produção, a taxa de exploração aumenta. Sob o sistema capitalista, a liberdade para o trabalhador é impossível.

A descoberta mais impressionante da análise é que os trabalhadores que produzem o iPhone hoje em dia são 25 vezes mais explorados do que os trabalhadores têxteis da Inglaterra do século XIX. A taxa de exploração do trabalhador do iPhone é de 2458%. Esse número nos diz que uma parte infinitesimal da jornada de trabalho é dedicada ao valor exigido pelos trabalhadores como salário; a maior parte do dia de trabalho é gasta para aumentar a riqueza do capitalista. Quanto maior a taxa de exploração, maior o aumento da riqueza do capitalista obtida pelo trabalho.

O Caderno nº 2 foi diagramado cuidadosamente por nossa equipe (Tings Chak e Ingrid Neves). Nós o produzimos na esperança de que seja amplamente utilizado para várias formas de educação – seja em formações políticas, em ambientes acadêmicos ou em estudos independentes. O texto é escrito em linguagem bastante direta; o design é pensado de forma a aprimorar o aprendizado. Estamos ansiosos pela recepção desse trabalho, pois ele formará uma série, composta de outros Cadernos, sobre outros conceitos-chave que nos ajudem a entender os contornos do capitalismo.

Nesta semana, as Nações Unidas organizaram cinco cúpulas sobre a catástrofe climática. O secretário geral da ONU, Antonio Guterres, diz que duas palavras definem essas cinco reuniões: ambição e ação. Protestos globais para defender o planeta ocorreram na sexta-feira passada, e outras manifestações virão. A conversa nas reuniões da ONU, no entanto, permanece bloqueada pela recusa dos Estados Unidos e de outros países ocidentais em reconhecer que eles têm a maior responsabilidade pela catástrofe, uma vez que excederam sua cota do orçamento de carbono. A esperança de que esses países contribuam substancialmente para o Fundo Global do Clima está agora fraca. O valor mínimo necessário é de trilhões de dólares, e não os poucos bilhões que foram prometidos. Fala-se pouco em mitigação, transferência de tecnologia, desigualdade de emissões ou outras soluções substanciais para as causas da crise atual.

Há alguns anos, a Oxfam divulgou um importante estudo que mostrava como os 50% mais pobres do planeta eram responsáveis por apenas 10% das emissões globais de carbono, enquanto os 10% mais ricos eram responsáveis por 50% delas. No entanto, como observa a Oxfam, são as pessoas dos países mais pobres as mais vulneráveis às mudanças climáticas e, muitas vezes, são erroneamente culpadas por causá-las. A discussão sobre desenvolvimento não ocorreu ao lado da discussão sobre mudanças climáticas. O que significa para os bilhões de pessoas que produzem mais-valia, mas que vivem em relativa pobreza, a participação em uma conversa sobre redução de consumo? Um estudo recente da ONU diz que existem pelo menos 820 milhões de pessoas que vivem com fome, enquanto pelo menos 2 bilhões de pessoas sofrem de insegurança alimentar. Esses são números que teimosamente não irão diminuir. Quem vive com fome é trabalhador.

Não se pode falar em lidar com as mudanças climáticas sem falar em abolir o sistema que vive com a fome e a pobreza da maioria das pessoas do mundo e sem reconhecer as sementes de um futuro melhor que está sendo plantado hoje. A corrente de pensamento crítico latino-americano nos lembra a importância disso. Em um relatório recente produzido por nossos escritórios em Buenos Aires e São Paulo – José Seoane escreve: “Não se trata apenas de imaginar esses futuros teoricamente com base em nosso passado; é também uma questão de refletir e disseminar os projetos populares que estão ocorrendo no momento e antecipar o futuro que estamos buscando”. Qual é o sentido de salvar o planeta se bilhões de trabalhadores estão morrendo de fome?

O sofrimento não é uma mercadoria. Não há mercado primário ou secundário para ele. É a terra e a pedra que estão no estômago de um ser humano faminto, um trabalhador que participa da cadeia de mercadorias que resulta em um iPhone.
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domingo, 8 de setembro de 2019

ARTE REALISTA| Amor por Dinheiro


Amor por dinheiro
Sérgio Britto / Tony Bellotto

Acima dos homens, a lei
E acima da lei dos homens, a lei de Deus

Acima dos homens, o céu
E acima do céu dos homens, o nome de Deus

E acima da lei de Deus
E acima da lei de Deus
O dinheiro! O dinheiro!

Que mata, salva, compra
Amor verdadeiro
Que suja, limpa, compra
Amor por inteiro
Amor verdadeiro
Amor verdadeiro
Dinheiro
Amor por dinheiro

Você não vale nada

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Sacos plásticos (BRA, 2009) - Titãs.
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sábado, 31 de agosto de 2019

ARTE REALISTA| Reprisando


Sinopse: Acordar. Comer pão. Chorar no ônibus. Fazer sinopses. Chorar no ônibus. Comer pão. Dormir. (Porta dos Fundos)
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Reprisando (farsa, BRA, 2019), de Vini Videla.
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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

ARTE REALISTA| Site de Compra e Venda


Sinopse: Esse laptop, em que digito, desenrolei com um rapaz chamado Victor da cidade de Três Ranchos, em Goiás, que queria muito que alguém recitasse Faroeste Caboclo enquanto esfregava iogurte grego em suas costas. (Porta dos Fundos)
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Site de compra e venda (farsa, BRA, 2019), de Vini Videla.
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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Na Índia, operárias rurais têm útero retirado para maior produtividade



por Geeta Pandey

'Aldeias das mulheres sem ventre': as milhares de indianas que removem o útero por causa de emprego

Milhares de jovens mulheres em Maharashtra, Estado ocidental da Índia, estão fazendo cirurgias para retirar os úteros. A maioria delas adotou essa solução radical para conseguirem empregos em plantações de cana de açúcar ou porque foram induzidas por médicos inescrupulosos.

Todo ano, dezenas de milhares de famílias carentes migram para uma região conhecida como "cinturão do açúcar" para trabalhar por seis meses na colheita da cana.

Muitas famílias acabam nas mãos de empregadores gananciosos que as exploram.

Eles resistem a contratar mulheres porque o trabalho nas plantações é pesado e, segundo eles, mulheres podem perder um ou dois dias de trabalho por causa da menstruação. Quem falta ao trabalho precisa pagar multa.

As condições de vida no local de trabalho estão longe do ideal e são particularmente complicadas para as mulheres durante a menstruação.

As famílias têm que viver em cabanas ou barracas perto das plantações, onde não há banheiros. Como a colheita às vezes é feita mesmo à noite, não há horas fixas nem para trabalhar nem para dormir.

Por causa das más condições de higiene, muitas mulheres contraem infecções. Segundo ativistas que trabalham na região, médicos inescrupulosos as incentivam a passar por cirurgias desnecessárias, mesmo quando apresentam um pequeno problema ginecológico que poderia ser tratado com remédios.

Aldeias de mulheres sem ventre

Como a maioria das mulheres nessas áreas é casada e jovem, muitas têm de duas a três crianças antes mesmo de completar 30 anos. Como os médicos não falam abertamente sobre problemas e dificuldades da histerectomia, muitas mulheres acreditam não haver problema em se livrar de seus úteros.

Isso transformou várias aldeias da região em "aldeias de mulheres sem ventre", segundo a imprensa indiana.

Depois que o problema foi levantado, no mês passado, pelo deputado estadual indiano Neelam Gorhe, o secretário de saúde de Maharashtra, Eknath Shinde, admitiu que 4.605 histerectomia foram realizadas em apenas um distrito - Beed - nos últimos três anos.

Mas, segundo ele, nem todos os procedimentos foram feitos por mulheres que trabalham na colheita da cana.

Shinde disse que uma comissão foi criada para investigar vários casos.

Prajakta Dhulap, que trabalha em um dos serviços da BBC na Índia, visitou um vilarejo de Beed e diz que de outubro de 2018 a março de 2019, 80% dos moradores do local migraram para trabalhar em plantações de cana. Metade das mulheres da vila fez cirurgia para tirar o útero e a maioria tem menos de 40 anos - algumas ainda estão na casa dos 20 anos.

Muitas das mulheres com quem Dhulap conversou disseram que a saúde deteriorou desde que foram submetidas à operação.

Uma mulher relatou uma "dor persistente nas costas, pescoço e joelhos" e disse acordar com mãos, rosto e pés inchados. Outra reclamou de tontura constante e como ela tinha dificuldades de caminhar até mesmo distâncias curtas.

Ambas disseram que não estão conseguindo trabalhar nas lavouras por causa dos problemas de saúde que apareceram depois da cirurgia.

Remédios ilegais contra menstruação

A imprensa também reportou que a situação no estado Tamil Nadu, no sul do país, é igualmente terrível.

Mulheres que trabalham na bilionária indústria de vestuário alegam ter recebido medicamentos não rotulados no trabalho - em vez de um dia de folga - quando se queixaram de dores e cólicas menstruais.

A fundação Thomson Reuters entrevistou aproximadamente 100 mulheres e revelou que esses medicamentos raramente eram fornecidos por profissionais da área médica e apontou que costureiras, em sua maioria de famílias carentes, diziam que não podiam se dar ao luxo de perder o salário de um dia por causa de dores menstruais.

Todas as entrevistadas disseram que tinham recebido remédios e mais da metade delas afirmou estar, como resultado, enfrentando problemas de saúde.

Muitas delas também disseram que não lhes foi dito o nome do remédio e tampouco foi falado sobre possíveis efeitos colaterais.

Algumas atribuíram aos medicamentos problemas como depressão, ansiedade, infecção urinária, miomas e abortos espontâneos.

Reportagens sobre o que mulheres menstruadas são submetidas nos dois Estados da Índia fez com que autoridades tomassem providências.

A Comissão Nacional para Mulheres descreve a situação das mulheres em Maharashtra como "patética e miserável" e pediu ao governo estadual para prevenir "atrocidades" como essa no futuro.

Em Tamil Nadu, o governo afirmou que iria monitorar a situação das trabalhadoras da indústria têxtil.

Disparidade salarial

As notícias chegam em um momento em que estão sendo feitas tentativas em todo o mundo para aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho e reduzir a diferença salarial, implementando políticas de gênero.

Mas, na Índia, a participação da força de trabalho feminina caiu de 36% em 2005-2006 para 25,8% em 2015-2016 e não é difícil entender por que, se olharmos para as condições em que as mulheres têm que trabalhar.

Na Indonésia, Japão, Coreia do Sul e em alguns outros países, as mulheres podem tirar um dia de folga durante o período menstrual. Muitas empresas também oferecem essa possibilidade.

"Também na Índia, o governo do Estado de Bihar vem permitindo que as funcionárias tirem dois dias extras de folga todos os meses desde 1992 e parece estar funcionando muito bem", diz Urvashi Prasad, especialista em políticas públicas do governo indiano.

E, no ano passado, uma deputada apresentou um projeto de lei no Parlamento a fim de assegurar dois dias de folga por mês a todas as trabalhadoras do país.

Urvashi Prasad diz que são muitos os desafios para implementar qualquer tipo de política pública num país tão grande e diverso como a Índia, especialmente no setor informal que exige uma fiscalização muito maior.

Mas, segundo ela, se as mudanças começarem no setor formal, pode ajudar a mudar o comportamento e remover o estigma em torno da menstruação na Índia.

"Então, o que precisamos é que o poderoso setor privado organizado e o governo se posicionem, precisamos que as pessoas no topo enviem os sinais certos", diz ela. "Nós temos que começar em algum lugar e, eventualmente, podemos esperar ver alguma mudança no setor informal também."
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